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domingo, 7 de setembro de 2008

40- Tombos e Trombos

Chegamos (mais uma vez) ao hospital.

Fui levada ao Pronto Atendimento (novamente) e aguardei pelo cardiologista. Como era feriado, à noite, claro que quem estaria de plantão seria um residente. Pois bem, quando ele chegou, disse que havia feito uma cirurgia há poucos dias e que comecei a sentir as dores há poucas horas e que desconfiava de uma trombose. Ele olhou a perna (que vergonha de mostrar a perna, viu?), apertou em alguns pontos para que eu dissesse onde doía mais, colocou a perna para cima (cama de hospital é ótima por isso) e disse que iria ligar para seu superior, relatar tudo e ver quais as providências a serem tomadas. Gostei da sinceridade dele. Poucos residentes admitem que precisam opinar com alguém mais experiente. Ele voltou logo e disse que deveria se tratar de uma trombose sim, e que eu iria começar a tomar anti-coagulante. Iriam me internar (de novo!) e no dia seguinte eu faria os exames necessários. E assim foi. Só um detalhe: não consegui dormir quase nada...

No dia seguinte, logo cedo, o cardiologista apareceu. E aqui quero abrir um espaço para falar dessa criatura. Vou chamá-lo de “chicabon”. Vocês entenderão daqui a pouco o por quê. Ele entrou, pegou em minha mão, se apresentou e não soltou minha mão. Perguntou o que aconteceu, sobre a cirurgia, quis saber de tudo. Fui contando, mas ainda assim achando estranho. Ele não largava minha mão!

Depois que acabei de relatar tudo para ele, me largou (ufa!) e começou a me examinar. Mediu minha pressão arterial, auscultou meu peito, mediu meu pulso e olhou as pernas. Só uma estava inchada e roxa. E doendo. Ele apertou, como o residente e sentiu a temperatura. Aí sentou, sem cerimônia, e começou a conversar. Disse-me que conhece a minha médica e que iria conversar com ela sobre a cirurgia, para saber mais detalhes, e que voltaria para me falar a respeito. Realmente, logo depois, ele entrou e disse ter conversado com ela.

Ela disse que a cirurgia foi bastante complicada e, enquanto precisava limpar a cavidade pélvica, várias veias e artérias grandes tiveram que ser deslocadas. Com isso, alguns coágulos podem ter se formado e, com a mexida da cirurgia e as minhas também, esses coágulos devem ter se deslocado e parado em regiões por onde não mais conseguiam prosseguir viagem, formando assim o trombo. Como eu sentia dores fortes em vários locais da perna, e nem conseguia caminhar direito mais, era bem provável que eu tivesse com mais de um trombo. Eu faria um exame para identificar esses trombos. Ele novamente segurou minha mão e perguntou se eu estava bem. Eu disse que, tirando a dor da perna, tudo estava bem sim.

Quando ele saiu, minha mãe comentou que tinha gostado muito do jeito e da vibração dele. Eu disse que também havia sentido o mesmo, mas que achei muito estranho ele ficar segurando minha mão. É incrível como estamos desacostumados ao carinho... se alguém nos proporciona um, logo achamos estranho! Enfim, ele me fez visitas periódicas e foi super atencioso.


Como ele havia prescrito, fiz a ecocardiografia da perna esquerda em 24 de abril. O resultado:

“Realizado estudo do Sistema Venoso Profundo e Superficial, do membro inferior esquerdo, com aparelho Eco-Collor-Doppler HDI 3000.

- Trombose total das veias femoral comum, femoral superficial e junção safeno femoral, com vasos incompressíveis, imagem de trombos e ausência de fluxo.
- Trombose parcial das veias poplítea e tibiais posteriores com imagem de trombos e fluxo parcial nos vasos.
- Veias fibulares pervias, sem sinais de trombose.
- Veias musculares do plexo da panturrilha compressíveis, patentes, isentas de processo trombótico.

CONCLUSÃO: trombose profunda extensa no membro inferior esquerdo.”


Fazia diariamente exame de sangue para controle da coagulação (RNI). A minha RNI estava alta e com risco de nova trombose. Tomava os anti-coagulantes prescritos e procurava me exercitar dentro do que ele havia me orientado. No quarto dia de internação ele chegou até minha cabeceira e disse que, em 4 dias ele achava que eu poderia ir para casa, que meu RNI estaria dentro do limite. Eu ri, e duvidei (porque estava alto mesmo!). Então ele perguntou se eu queria fazer uma aposta com ele. Eu respondi que sim, e que ganharia com facilidade. Apostamos então, um picolé. Por isso seu pseudônimo aqui é Chicabon. E claro, ele ganhou a aposta!

No dia seguinte a esse fato, ele sentou na poltrona ao lado da cama e conversou comigo. Disse que não me conhecia, que eu não era paciente dele, mas que ele gostou muito de mim e sentiu que eu não me deixava abalar por pouco. Que ele gostava de gente assim, guerreira. Que em qualquer nível em que minha vida estivesse, eu saberia enfrentar de frente. Aquilo me comoveu profundamente. Não me lembrava de quando tinha ouvido alguém me dizer palavras tão legais pela última vez. Eu tinha o apoio de algumas pessoas, mas ninguém chegava perto de mim prá falar essas coisas, olhando em meus olhos. Muito menos alguém como o Dr. Chicabon. É um homem fantástico, sensível, e que me fez ficar de pé novamente, literalmente.

Durante essa internação, recebi uma visita inesperada: meu ex-marido, com a esposa e minha ex-sogra. Aquela visita me deixou zangada e aliviada. Zangada pela cara-de-pau dele. Aliviada, porque só veio me confirmar que sua esposa tem consciência das coisas e isso me deixa tranqüila em relação à minha filha. Por um lado foi bom, porque ele sempre dizia que eu fazia muito drama com a minha doença e as coisas que aconteciam comigo. Ele pôde ver, pessoalmente, que eu não estava sendo dramática. Fiz questão de mostrar a bolsa de colostomia no abdomen.

Tive outras visitas legais, apesar de não gostar de receber visitas. Quando estou no hospital ou em casa após internação, gosto de ficar isolada. É meu jeito. As únicas pessoas de fora que não me incomodam quando aparecem são as que tenho afinidade, tipo minhas tias.

Lembram que, quando estava internando, eu disse que não queria raciocinar? Que isso me levaria a um quadro de inconformação? Pois é... Não teve jeito. No hospital, deitada, isso acontece meio que obrigatoriamente. Só para lembrar, sempre que me aborrecia, sentia necessidade de fumar. E fazia isso, no quarto mesmo, burlando todas as regras do hospital. E sabendo do risco de provocar outro trombo por causa do cigarro. Mas ou fazia isso ou começaria a ser uma pessoa agressiva ali mesmo. Quantas coisas passaram pela minha cabeça! Nem parece que acredito em Lei de Causa e Efeito e vida após a morte. Nem prece e nem leituras edificantes me tranqüilizaram nesse momento. Não conseguia aceitar as coisas que me aconteceram durante a vida. E sei que é exatamente aí que se encontra meu “start” para a doença atacar.

Não é que eu seja assim todo o tempo, geralmente sou o oposto disso. Mas, em alguns poucos instantes da vida, me dei o direito de sentir pena de mim mesma. E é horrível! Sei que nada nos acontece por acaso, mas você não ter as respostas te deixa muito vulnerável em momentos assim. Enquanto no meu dia-a-dia tenho uma fé grande, acredito em Deus e em meu anjo da guarda e tento inspirar essa confiança nas outras pessoas, naquele momento eu me sentia a cristã mais incrédula do planeta. “Homens de pouca fé!”... Me achava injustiçada, sacaneada.

Na vida, não consegui ser feliz em nada, nenhum projeto, nenhuma relação. Nada. E agora a saúde desse jeito, me privando de fazer o pouco que eu já fazia. Não era justo. Vejam bem, eu estava em um ciclo pessimista e não conseguia enxergar um futuro, quanto mais um futuro bom. E comecei também a me revoltar. Não tenho vergonha de assumir esse meu momento de fraqueza, pelo contrário, acho até que a maioria das pessoas que se encontram em meio a problemas grandes também se sintam da mesma forma. E tomei decisões, ali mesmo no hospital. Voltaria para casa, cuidaria da saúde porque é minha obrigação cuidar do meu corpo que é meu instrumento de evolução e cuidaria de continuar tentando um bom futuro para minha filha. E só! Não queria projetos a longo prazo, nem compromisso com ninguém. Passei a ter certeza absoluta de que deveria me concentrar e aceitar a viver só. E assim foi.

Em 28 de abril, recebi alta. O sumário da alta dizia:

“MOTIVO DA INTERNAÇÃO: paciente portadora de doença de Crohn, em uso de azatioprina, fluoxetina, corticóide e clonazepam, em pós operatório recente de colostomia definitiva por necrose de parede de reto e sepse pélvica, iniciou no dia da internação com dor e eritema em perna esquerda. Nega febre, vômitos, dor torácica ou dispnéia. Atendida com panturrilha esquerda empastada, com eritema até raiz da coxa. Homans +, pulsos pedioso e tibial posterior finos mas presentes. Passado de anemia. Colhido coagulograma e hemograma no PA.

EVOLUÇÃO: paciente evoluiu satisfatoriamente com melhora da dor em membro inferior esquerdo, da hiperemia e do empastamento sem episódios de sangramento. Manteve-se estável hemodinamicamente, com bom padrão respiratório, sem febre, sem maiores intercorrências durante internação. Recebe alta em boas condições clínicas”

Voltei para casa, com um sorriso no rosto por estar com possibilidades de viver dignamente de novo (ou quase). Mas levaria minhas propostas adiante. E novamente afastei todos de mim. Na verdade, esse “todos” eram pouquíssimas pessoas. Fui descobrindo, ao longo desse tempo de convivência com o Crohn, que raras pessoas estavam dispostas a ajudar efetivamente, na prática. Amigos de internet não existiam mais para mim. E amigos “reais” não tinha muitos.

Coloquei todos os meus papéis em dia. É estranho e difícil explicar o que se passava comigo e sei que alguns não entenderão, mas me preparava para o que achava ser inevitável em algum momento muito próximo: meu desencarne. Não estava pessimista nem desejando morrer, apenas tinha isso gritando dentro de mim. E fui ficando “falsa” com as pessoas que se aproximavam de mim, demonstrando otimismo e resistência sempre, mas não estava assim por dentro. Estava cansada daquilo tudo. Se com 37 anos já tinha passado por tudo isso e ainda não podia dar rumo na vida, o que seria de mim com dez anos a mais? Um estorvo para minha filha? Não, definitivamente não queria isso. Nem prá mim e nem prá ela. E passei algum tempo assim...

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domingo, 31 de agosto de 2008

39- Ostomizada...

A confecção do estoma (colostomia)



Expliquei sobre a colostomia, mas alguns detalhes vocês não encontrarão em livro nenhum. Só a prática faz o entendimento nesse caso. Esses detalhes chegam a ser inclusive constrangedores, mas sinto necessidade desse relato e creio que para quem ainda não conhece direito sobre o assunto será muito bom ler isso. Aliás, é a função desse blog. A primeira coisa que gostaria de dizer é a questão da limpeza da bolsa.

Vejam... a bolsa possui uma placa adesiva com um buraco no meio. Algumas já vêem com o buraco cortado no tamanho certo do estoma e outras, você mesmo corta, que era o modelo da minha. E existem bolsas de uma só peça e de duas peças, que era o meu caso. A de uma peça, a placa e a bolsa são uma coisa só. A de duas peças, você cola a placa, depois encaixa a bolsa. Serve para você fazer uma higiene melhor, diariamente, e controlar para ver se está tudo bem, principalmente no início de uso, logo após a cirurgia.

http://www.bhj.org

Disseram no hospital que o normal é você sentar no vaso sanitário, abrir as pernas, abrir a bolsa e liberar o conteúdo para que caia dentro do vaso. Depois, algumas pessoas usam uma garrafa com água e vão colocando água dentro da bolsa pela abertura em que as fezes saíram, e vão lavando dessa maneira por dentro da bolsa até que a água saia limpa. Eu não podia fazer dessa forma. Não sou uma pessoa magra e essa posição não me favorecia. Minha médica havia me ensinado da seguinte forma: esvaziar a bolsa dentro de um recipiente que eu deixaria somente para aquele uso. Encheria a bolsa com a água, direto da torneira da pia e esvaziaria nesse recipiente. Faria isso até limpar bem a bolsa. Iria até o vaso, despejaria tudo lá e pronto. Lavava o recipiente e esperava para fazer tudo novamente.

E admito aqui que, por várias vezes fiz muita sujeira. Principalmente quando a bolsa enchia muito de gases e, quando abria, saia tudo de uma vez só pela pressão. Isso acontecia geralmente de madrugada, quando acordava com a bolsa quase “estourando”. Foram algumas madrugadas limpando banheiro... Fui me virando bem dessa forma, até o dia em que precisei sair e não sabia como agir em um banheiro público. Imaginem minha situação... Com o tempo fui me adaptando melhor e descobrindo formas de lidar com tudo isso, mas até chegar nesse ponto, sofri um pouco, e, prá ser sincera, ainda sofro. E agora falo de sofrimento físico, de dor. Hoje não uso mais o recipiente porque esvazio a bolsa diretamente no vaso sanitário. Mas para que as fezes não caiam e respinguem água para cima, necessito ajoelhar e jogar um pedaço de papel higiênico no vaso antes. E, ainda nessa posição, uso a ducha higiênica para lavar a bolsa e me molho algumas vezes. Mas essa posição é difícil por alguns motivos. Primeiro pelo esforço no abdômen e também porque de joelhos, não há orgulho que resista...

Meu intestino costuma, quando estou em dias normais, funcionar a partir das 16h. Digo “a partir” porque, como o estoma não possui um esfíncter (músculo que controla a saída das fezes pelo ânus), as fezes vão saindo aos poucos. E aí costumo evacuar, aos poucos, até por volta das 22h. Num belo dia atípico (estava chateada) estava eu na faculdade de manhã... Adivinhem? Meu intestino resolveu funcionar! E não foi aos poucos, foi de uma vez só. E diarréia pura. A bolsa pesava. Precisava esvaziá-la a qualquer custo. Mas os banheiros da faculdade são “indecentes” de sujos. Mal cabe uma pessoa dentro de cada box e vivem imundos, com as lixeiras transbordando de papel sujo e os vasos davam a impressão que não viam água há dias. Criei coragem, fui até a secretaria, e pedi para falar com a pessoa responsável por essa área. Mostrei minha bolsa por baixo da camisa, assumi (pela primeira vez) que era deficiente física e que precisava usar, com urgência, um banheiro diferenciado. Na mesma hora fui atendida e levada ao banheiro dos funcionários. Na semana seguinte construíram um box para deficientes físicos no banheiro do meu prédio, no primeiro andar.

Sim, o Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004 classifica os ostomizados como deficientes físicos. Mas até eu admitir isso demorou muito. Claro que tenho necessidades especiais e não posso fazer de tudo que fazia antes, mas daí a ser deficiente? Nesse dia, quando precisei usar dessa prerrogativa, resolvi que era melhor, prá mim mesma, assumir essa questão logo. Mas isso é uma outra história, que merece um capítulo à parte.

Voltando aos meus dias iniciais de ostomizada...

A primeira troca de bolsa que fiz, foi super tranqüila. Claro que fiquei nervosa e apreensiva, mas deu tudo certo. E a bolsa durou por 4 dias! A partir daí, não tive mais problemas quanto a isso. Preciso agora entrar em um novo relato...

Saí do hospital no dia 05 de abril, realizei essas trocas relatadas acima e saí de casa por 3 vezes: consultório da médica para revisão da cirurgia; hospital para a troca da bolsa; e enfermeira da Secretaria de Saúde onde distribuem as bolsas gratuitamente. Isso tudo entre os dias 05 e 20 de abril. No dia 19 foi o meu aniversário, não recebi muitas visitas, pois foi um desejo meu, e não precisei atender nenhum telefonema com a desculpa de que estava de repouso (nunca gostei do dia do meu aniversário).

No dia 21 de abril, feriado, fiquei lendo uma boa parte do dia, depois assisti TV. No final da tarde, quando levantei para ir até a janela fumar (lembram? Eu fumo...), comecei a sentir dor na perna esquerda. De imediato pensei que tinha ficado deitada em cima da perna e isso foi feito de mal jeito. Estava me habituando a ficar deitada de lado, pois de barriga para cima, as costas doíam muito por causa das hérnias e da sacroileíte. Terminei de fumar e deitei novamente. Passou-se um tempo, coisa de meia hora, a perna começou a doer de novo. Mas eu não estava deitada para o lado esquerdo. Achei estranho, levantei, fui até o banheiro esvaziar a bolsa e deitei novamente. E nada da dor melhorar. Era uma dor dentro da perna, não parecia dor muscular. Levantei e fui fumar de novo (o cigarro me acalmava). Estava tão saturada de dor, que comecei a ficar chateada. Já não bastavam as dores normais, e tinha mais essa agora? Enquanto estava em pé, na janela, a perna começou a doer mais que antes. Mas mais mesmo! Tanto que não consegui ficar lá e terminar o cigarro. Apaguei no cinzeiro e voltei rápido para a cama. Queria esticar a perna para ver se aliviava. Sentei na cama e estiquei a perna, na tentativa de fazer uma massagem, mesmo sem conseguir me “dobrar” ainda por causa da cirurgia. Quando levei a mão até a perna e olhei, minha perna estava roxa! Escura! E grossa, mais grossa que a outra. E aí o conhecimento do curso de Enfermagem me valeu. Deitei, coloquei uns travesseiros embaixo da perna, cobri com o lençol e chamei por minha mãe. Quando ela chegou, pedi calmamente que ligasse para a médica e dissesse que eu estava com dores na perna esquerda, muito fortes, e que a perna estava escurecendo. Que eu estava desconfiada de uma trombose. Na mesma hora ela foi ao telefone. Pronto, fui voando para o hospital. E desde então, procurava respirar fundo e não ficar pensando. Sabia que quando parasse para raciocinar ia entrar em um processo de inconformação muito grande. Me conheço!

Volto no próximo post detalhando esse relato da trombose...

Bjim!

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domingo, 24 de agosto de 2008

38- A Cirurgia

Então... vamos à explicação da cirurgia, que segundo minha médica, não foi fácil.

Ela me "abriu" e encontrou duas situações urgentes. Houve uma perfuração do intestino (no cólon sigmóide) e minha cavidade pélvica estava completamente tomada por líquidos e fezes. Foi necessário drenar tudo, com cuidado, pois vários órgãos seriam tocados e afastados para a limpeza. Nesse líquido estava a tal "coleção" vista nos exames. Segundo ela era bem grande e a principal causa das dores fortes que senti.

Após isso, começou o trabalho para remover o cólon sigmóide. Mas a situação estava bem pior do que ela supunha. O sigmóide estava necrosado sim, mas o reto também. Não havia a menor possibilidade de uma colostomia provisória. Ela só ficou tranqüila porque, independente disso, eu havia optado pela definitiva. Segundo seu relato, a alça do sigmóide havia estourado provocando o vazamento para a cavidade pélvica. E eu estava sem o reto!

Foi nesse momento que fiquei sabendo que a cirurgia demorou muito mais que o esperado, que meus pais e meu bebê ficaram ansiosos demais e que eu participei de alguns momentos da cirurgia mas que, por causa da anestesia, claro que eu não me lembrava de nada. Ela havia me mostrado, na hora da retirada, o sigmóide e o reto e a coleção de pûs. Como eu gostaria de lembrar...

Para encerrar a conversa, ela me disse que a febre era devido à infecção na pelve e cavidade abdominal, à formação da coleção e que essa infecção já estava espalhando. Mais umas 24 horas e eu corria o risco de ter uma septicemia (infecção generalizada). Isso me levaria a óbito rapidinho.

Resumindo foi isso. Estava com os medicamentos normais, acrescentando um anti-coagulante, um antibiótico, um protetor para o estômago e um "sossega leão" para dormir. O anti-coagulante e o protetor para o estômago eram aplicados (injetados) em minha barriga.

Comecei a me movimentar mais. Ia ao banheiro sozinha (arrastando o soro), aprendi a limpar a bolsa no banheiro e já tomava meu banho como gostava (não suporto ficar sem banho, sem desodorante e sem perfume). Ficava sentada na poltrona alguns momentos ou com a cabeceira da cama bem elevada, quase em 90º. Os exercícios respiratórios foram tranqüilos, sem dificuldades.

Recebi poucas visitas, porque essa havia sido a minha vontade. Meu padrinho, uma tia que considero muito, a “titia” (claro), uma prima estudante de medicina, o panda, um amigo de meu bebê, poucos amigos de meus pais, e uma amiga da faculdade.

Como foi uma cirurgia de grande porte, a gente fica de um jeito diferente. Como se Deus tivesse dado outra chance prá viver mais. Numa cirurgia de grande porte, o risco de algo dar errado é muito grande. E eu quase tive septicemia! E esses dias em que fiquei no hospital, e até hoje, posso dizer, fico pensando em muitas coisas. Se aquela ainda não tinha sido a minha hora de partir desse plano, porque então eu precisava continuar? Ainda era necessário passar por mais provas? Quantas delas? Quantos sofrimentos a mais?

Sabem por que isso me deprimia? Porque, como acredito em reencarnação e lei de causa e efeito, se estou sofrendo é porque tem um motivo. E não foi pelo fato de ter feito coisas boas no passado, óbvio... Meu Deus! Então devo ter feito muita coisa ruim! Não é que não queria mais viver... perdi a vontade de lutar por muitas coisas sim, pretendo falar disso mais à frente, se conseguir. Mas não queria mais viver sofrendo, só sofrendo... queria um descanso nisso tudo... queria levar uma vida normal... queria minha vida de volta!

Foi uma avalanche tão grande de sentimentos... vou tentar relatar os que tiveram peso maior nesse momento pós-cirúrgico... eu ficava muito tempo acordada à noite, apesar dos remédios. Era muita coisa na cabeça e meu espírito precisava pensar para encontrar respostas e se acalmar. E à noite era ótimo. Silêncio absoluto, nenhum funcionário entrando no apartamento, e quem me acompanhava, qualquer um que fosse, sempre dormia profundamente. Eu poderia até ter soluçado no choro que nenhum deles acordaria, mas preferia não arriscar e, como sempre, chorei “prá dentro”.

Meu primeiro pensamento foi prá minha filha... e tenho muito medo de como ela vai reagir ao ler isso aqui... mas vamos lá... comecei a relembrar tudo... desde que soube que ela viria ao mundo... e me senti uma péssima mãe! Vejam como minha cabeça raciocinou... não dei a ela uma chance de ter um pai presente, pois quando ela nasceu, eu já estava separada. Tive que submetê-la a morar com os avós, porque não tinha como sustentar nós duas. Dormíamos no mesmo quarto e com isso ela perdeu toda a liberdade que um dia poderia ter tido. Mesmo tendo um quarto só seu na adolescência, não bastava que eu respeitasse seus momentos, suas necessidades, seus sentimentos. Ela não podia sair, ir na casa dos amigos, passear, ir às festas, porque eu não tinha carro para ir buscá-la à noite. Ela dependia sempre de carona. E o que era pior: como se não bastasse ter feito ela passar por tudo isso, eu ainda não sabia conversar. Tentava, mas pela reação dela, falhava na maioria das vezes. E em outras oportunidades, não podia me dedicar a ela como deveria. Não podia sair muito por causa das evacuações, ficava às vezes deitada por causa de cólicas. E ela ainda teve que presenciar a noite em que passei mal... isso realmente não era justo para com ela. E ainda não é. Continuo limitada. Só penso em um dia poder resgatar isso com ela. Meu sonho era ter uma filha que quisesse ser minha amiga, que não se envergonhasse de mim, que sentisse vontade de me envolver em seus problemas. Enfim, isso me tirava o sono. Os outros assuntos, pude pensar com mais calma depois que saí do hospital. Mais adiante retomo isso.

Recapitulando... minha cirurgia foi no dia 30 de março, saí do CTI no dia 01 de abril e, no dia 05 estava recebendo alta. Os dados do sumário de alta:

“Antibioticoterapia. Retossigmoidectomia anterior com fechamento do coto retal ao nível do assoalho pélvico e colostomia definitiva em cólon esquerdo.”

Fui para casa sabendo que ia enfrentar ainda o passo mais difícil: a troca da bolsa de colostomia. No hospital trocavam para mim. Ou minha médica ou uma enfermeira. Saí de lá com o pedido para procurar uma estomaterapeuta, que ia em casa, de graça. Era representante de uma marca que fabricava bolsas. Ela ensinava a cuidar e indicava o melhor tipo de bolsa para o caso. Pedi minha mãe que marcasse com ela. Ela apareceu, fez a troca, me explicou alguns detalhes e se foi. Hoje eu sei que a troca de bolsa é algo simples, mas nessa época, mesmo com os estágios que havia feito no curso de enfermagem, estava morrendo de medo. Estava achando que poderia fazer algo de errado e fiquei muito insegura. Para a minha sorte, pouco tempo após a visita da enfermeira, estava marcado meu retorno no consultório da minha médica. Claro que ia aproveitar para que ela fizesse a troca. Ia tirar a atual para ver o estoma mesmo... me livrei de mais uma. Mas nessa consulta, o exame mostrou que eu estava com taquicardia e pressão baixa (80 / 50 mmg). Disse que minha albumina estava super baixa no hospital (1,9) e minha hemoglobina também estava baixa (8,6).

Reiniciamos o corticóide (20 mg/dia)...

Dois dias depois, a bolsa descolou e começou a vazar. Ainda não tinha conseguido pegar as bolsas de graça pela Secretaria de Estado da Saúde. Era necessário passar antes pela avaliação de uma enfermeira e estava marcada prá daí a alguns dias. E se eu fosse ficar comprando a bolsa que a estomaterapeuta indicou (e que realmente era a melhor), teria que pedir dinheiro emprestado, pois a bolsa era caríssima. Fui então até o hospital, no Pronto Atendimento, e pedi para fazerem a troca para mim. Aleguei que a cirurgia era muito recente e que eu ainda não conseguia. E como ela descolou, teria que fazer a troca antes do dia marcado com a enfermeira. Eles aceitaram e fizeram a troca.

E realmente, dois dias depois, seria minha consulta com a enfermeira da Secretaria para avaliar o tipo e quantidade de bolsa que eu poderia pegar mensalmente, de graça. E foi somente nessa consulta que minha ficha caiu. Estava ostomizada e seria ostomizada para o resto da minha vida. Era hora de encarar essa questão e assumir o controle disso em minha vida. A enfermeira ia falando e me mostrando os detalhes de tudo. Prestei bastante atenção. Quando ela terminou, perguntou como eu estava lidando com aquela nova realidade. Foi aí que lembrei que ainda não tinha pensado no assunto pelo prisma da realidade.


Saí de lá meio atônita. Não estava participando da história de um paciente que eu teria que cuidar... era a minha história! As dores eram reais, o estoma era real, a bolsa era real, as fezes eram reais... claro que minha vida ia mudar... e muito!

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