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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Novidades em Medicamentos




Olá a todos!

Sei que andei sumida, mas é por uma boa causa que vocês logo saberão...

Nesse post venho mostrar um lançamento interessante. Relembrando que não faço propaganda para laboratório X ou Y. Apenas posto o que acho interessante para melhorar o tratamento da Doença de Crohn, como paciente.

Acaba de chegar no mercado a mesalazina em sachê de 1g e 2g. Qual a vantagem? Bom, primeiramente, se você faz uso de 4 comprimidos de mesalazina de 500mg, você pode tomar 1 sachê de 2g apenas uma vez ao dia. Outra vantagem é que você esvazia o conteúdo do sachê diretamente na boca e bebe um gole de água/suco, assim não perde nada. Mas não pode mastigar. Os microgrânulos do sachê são os mesmos dos comprimidos de 500mg.




Resolvi investigar os preços, já que é uma mesalazina nova que ainda não faz parte do protocolo do Ministério da Saúde. Ao comparar a compra da mesalazina de 500mg da mesma marca e a compra do sachê, vi que é econômico. Pelo menos, nessa data. E descobri mais ainda: que se eu ligasse diretamente para o laboratório conseguia um desconto de 32%.

Achei vantajoso e por isso resolvi postar. Para quem não sabe, só existem 2 laboratórios que produzem a mesalazina de 500mg. Um desses laboratórios foi impedido pela ANVISA de participar da dispensação de medicamentos excepcionais do Ministério da Saúde por não estar em conformidade com a mesalazina de referência, que contém microgrânulos. E é esse laboratório da mesalazina de referência que acaba de lançar o sachê.

Para quem tiver interesse e quiser comprar com desconto: 0800-770-2255

Logo estarei de volta com novidades!!!
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

60- Uma Pausa...

Oi, gente...

Darei uma pausa no meu relato para voltar em um assunto importante: MEDICAMENTOS!

Essa questão é delicada na Doença de Crohn, porque o mesmo medicamento pode desenvolver efeitos adversos diferentes entre os pacientes. Como também pode surtir efeito benéfico ou não. Muitos detalhes existem a serem discutidos.


Coloquei uma lista detalhada dos medicamentos no site da AMDII, caso alguém tenha curiosidades de ver.

Outra questão preocupante é na hora de comprar um medicamento que não é cedido pelo governo. Para baratear os custos algumas pessoas mandam manipular alguns medicamentos e os efeitos esperados podem não acontecer. Pergunte sempre ao seu médico antes de trocar o medicamento de referência pelo manipulado, ok?

Falando em medicamento de referência, você sabe a diferença entre os medicamentos de referência, genéricos e similares?

Tomei a liberdade de copiar um post do Blog do Pedro: (obrigada, Pedro!)


* Medicamento de Referência é o produto inovador. Aquele em que determinado laboratório gasta uma certa quantidade de dinheiro para desenvolvê-lo (e isso inclui todos testes de segurança, eficácia, etc.) e colocar no mercado depois das devidas autorizações pelos órgãos competentes;

* Medicamento Genérico tem a mesma qualidade e efeito do medicamento de referência, ou seja, são idênticos. E também é testado para a comprovação de sua eficácia, portanto é seguro. É desenvolvido após a renuncia ou vencimento da patente do medicamento de referência;

*
Medicamento Similar é uma alternativa terapêutica, mas os efeitos podem ser diferentes do medicamento de referência.

Portanto pessoas, muito cuidado! Se você tem alguma dúvida sobre um medicamento ou sobre a substituição dele, procure a pessoa instruída para isso: o farmacêutico! Medicamento é coisa séria e sua saúde mais ainda.

É isso aí, pessoal... espero que essas informações tenham sido úteis!

Bjim

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terça-feira, 16 de setembro de 2008

42- Mais Novidades...

Então... parei no mês de julho de 2006... quase 4 meses após a cirurgia...

Cheguei no lugar onde consigo as bolsas de colostomia gratuitamente e marquei com o enfermeiro que fazia o atendimento da tarde, para que ele me ensinasse a técnica da irrigação e tentasse arrumar o material para mim, pois é muito caro. Fui levando um relatório da minha médica, dizendo que eu tinha condições de tentar a irrigação, mesmo sendo portadora de Doença de Crohn. Mas o danado do enfermeiro foi irredutível. Enfrentou o relatório e disse que não iria me liberar para irrigação, em função do protocolo. Pedi para ver o protocolo. Ele me trouxe umas folhas datilografadas... isso mesmo... d-a-t-i-l-o-g-r-a-f-a-d-a-s, e não vi referência alguma do Ministério da Saúde.

Ele disse que o protocolo foi criado por eles mesmos e que realmente precisava ser atualizado, mas que aquela regra continuava valendo. Nossa... saí de lá espumando de raiva. O cara me tirou qualquer esperança de melhorar minha qualidade de vida! A irrigação era tudo que eu queria naquele momento... tava toda animada, depois de muito tempo...

Como não comecei a irrigação nesse momento, deixarei para explicá-la detalhadamente quando chegar a época em que realmente comecei a fazer uso, ok?

O mês de agosto começou e, logo no primeiro dia de aula, não fui. Era dia da perícia médica da Previdência e sobre essa perícia quero comentar. Fui atendida por uma médica que estava começando nessa área de perícias, mas que parecia ter maturidade suficiente para tal feito. E ela fez algo inédito até onde sei nas minhas idas até lá. Ela me examinou dos pés à cabeça. Imaginem a minha surpresa! Nesse dia, eu estava com 4 meses de cirurgia. Eis o relatório da minha médica:


“A paciente é portadora de doença de Crohn grave. Foi operada em março/06 com proctocolectomia com colostomia esquerda terminal. Evoluiu com quadro de trombose venosa profunda, em tratamento. Segue com controle médico e uso de medicação pertinente.”


Após o exame, ela chamou o “chefe” e eles analisaram e decidiram me aposentar... Nesse momento, comecei a chorar (é, chorei de novo). Disse a eles que não queria me aposentar, que estava no final do curso de Enfermagem, que queria trabalhar muito ainda e que minha médica já queria que eu começasse a irrigação. Aí eles confabularam novamente. Resolveram não me dar a aposentadoria, mas me deram mais dois anos de auxílio-doença. Próxima perícia só em Agosto de 2008! E ainda disseram que eu era muito estranha. Todo mundo queria aposentar e eu não...

Recomecei as aulas. Os primeiros dias foram muito difíceis para mim. Além da curiosidade do pessoal, ainda tinha que lidar com o barulho dos gases, que saíam a todo momento. Agora sim, era constrangedor... soltava os gases em público. Pelo menos a bolsa retinha o cheiro. Bom, mas tinha que ficar sentada a manhã toda e isso ajuda os gases a acumularem. E ainda tinha que ficar com a perna da trombose para cima. Como não podia fazer esforço físico e isso incluía andar de ônibus, resolvi contratar os serviços de uma Van. O motorista me pegava e deixava na porta de casa todos os dias. Outra despesa a mais...

Nessa mesma semana da perícia, comecei com uma diarréia brava. E novamente fiz associação com as coisas que estavam me acontecendo: reinício das aulas, agora ostomizada; apreensão pela perícia; o enfermeiro que não me permitiu fazer a irrigação; a falta de dinheiro (sempre). Para quem estava há meses parada em casa, até que esses acontecimentos não eram pouca coisa. Fui até minha médica, claro. E o que constatamos? Ahá! Estava com infecção intestinal! Legal...

Comecei com antibiótico. E também voltei com a Mesalazina...Ela me providenciou também um segundo relatório para que eu levasse até o tal enfermeiro, com os seguintes dizeres:


“A paciente é portadora de colostomia terminal à esquerda devido à doença de Crohn. Apesar da presença de hérnia pericolostômica, a paciente TEM condição de realizar irrigação da colostomia. Favor fornecer o material e orientação necessárias.”


O grifo não é meu, está exatamente assim no relatório. Pergunto: vocês acham que adiantou? O cara nem quis me atender. Aí enfezei. Fui até a AMOS (Associação Mineira de Ostomizados). Eles já me conheciam de nome, por causa do GADII, e relatei o acontecido. Me prometeram o material para o mês seguinte. Fiquei no aguardo.

Mas o mês ainda não havia terminado... ah... nunca acredite que as coisas não podem piorar...

Como eu disse anteriormente, estava usando uma meia de compressão na perna esquerda. E, com a ajuda do corticóide, havia engordado uns 15kg desde a cirurgia. Como fiquei muito tempo de repouso, juntando o peso a mais, a meia na perna que fazia compressão, e o fato de ter um estoma na barriga, tinha dificuldades de caminhar com segurança. Não deu outra. No dia 22, saindo da aula a caminho da Van, levo um tombo. Mas essa queda foi muito estranha. O passeio era plano, sem nenhum buraquinho que me fizesse tropeçar. E não me senti tropeçando, mas sim, sendo empurrada. E estava só naquele momento. Caí como uma jaca madura. Com medo de cair de barriga, coloquei o peso na minha perna que caiu primeiro no chão: a da trombose. Resultado: ralei os dois joelhos, com sangramento importante no esquerdo; torci o pé esquerdo que inchou na mesma hora; e adquiri alguns roxos em alguns pontos das duas pernas. Corri para o Pronto Atendimento, porque fiquei com medo pela perna da trombose. Mas não foi só uma torção no tornozelo. Fiz exames porque a dor estava muito forte no joelho. E lá constou que rompi o ligamento do joelho. Inchou muito e precisei de uma semana de repouso (sou a mulher dos repousos!). Mas o médico disse que foi um rompimento leve e que voltaria ao normal em um mês. Aiai...


E assim passei o mês de agosto...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

30- Fechando 2005!

Respondendo a pergunta do último post... : Sim, tem!!!!!

Em julho (ainda em 2005), em mais uma perícia médica da Previdência, levei o seguinte relatório. Sei que vocês já devem estar cansados de lerem esses relatórios que se parecem um com o outro, mas é só para nos situarmos:

“A paciente é portadora de doença de Crohn íleo-cólon-reto-perineal, com acometimento extra-intestinal (sacroileíte e fístula reto-vaginal). No momento em uso de metronidazol 250, azatioprina, mesalazina, fluoxetina. Aguardando liberação de infliximab pela SES para receber a medicação EV. Sem condições de exercer suas atividades.”

No final do mês de julho, a Secretaria liberou o Infliximab (nome comercial: Remicade). Ele seria aplicado da seguinte forma: minha dosagem seria de 3 vidros por aplicação e começaria na primeira semana de agosto, depois, após duas semanas, depois após 4 semanas e, então, de 8/8 semanas.

A primeira aplicação foi em 03 de agosto. Internei no mesmo hospital de sempre. Como lá não possuía ambulatório, tinha que internar. Foi melhor porque não sabíamos se eu teria alguma reação, já que seria a primeira vez. Estava nervosa, principalmente porque a diluição do medicamento deveria ser precisa. Isso era feito no setor de enfermagem, sem eu ver, e pela enfermeira do setor. Enquanto minha médica foi explicar os cuidados que deveriam tomar com o medicamento (sua diluição e seu preço), duas funcionárias da enfermagem vieram puncionar minha veia para que ficasse tudo pronto na hora em que o medicamento estivesse diluído no soro. Programaram o gotejamento para correr durante duas horas e fiquei lá esperando meu remedinho chegar. E assim aconteceu. Antes de completar as duas horas já não agüentava mais de vontade de ir ao banheiro para fazer xixi, mas fiquei com medo de levantar e passar mal. Tudo que é a primeira vez nos dá medo.

No final da infusão fui ao banheiro com minha mãe me vigiando. Foi tranqüilo. Voltei para a cama e ia receber ainda 2 frascos de soro. Achamos melhor, para que o Infliximabe diluísse melhor. Dormi quase que o tempo todo. Quando estava acordada, rezava para que aquele remédio mais ajudasse que atrapalhasse. Eu era a primeira paciente da minha médica a fazer uso dele, mas mesmo assim tinha segurança e confiança nela. E alguém deveria ser a primeira, certo?

Resumindo essa historia... estava utilizando o Infliximab por causa da fístula e da sacroileíte e, se tivéssemos sorte (?), ajudaria também para a doença de Crohn em si. No dia seguinte recebi alta, sendo que, a única reação que tive foi um pouco de febre e deveria ficar em observação em casa. Não queríamos que desse algum problema, então fiquei em casa quieta por dois dias.

Nesse meio tempo as aulas recomeçaram. Precisei fazer um esforço enorme dentro de mim para continuar o curso. Iria enfrentar uma turma nova, onde não conhecia ninguém, já que perdi o semestre anterior. Me sentia como uma repetente, aquela aluna que tomou bomba e tinha que repetir de ano... Já sabia o que iria aprender, tinha um bom material já selecionado em casa, só faltava aguardar pelos professores. O engraçado é que temos a mania de sempre reclamar de tudo. Vivia reclamando da sala em que estudava, de como as pessoas eram falsas, interesseiras e superficiais. Depois que conheci essa nova turma, senti saudades da antiga.

Algumas matérias eram bem interessantes de se aprender, como Saúde da Mulher, da Criança, do Adolescente e do Recém-nascido. E ainda tinha a disciplina de Saúde Coletiva. Achei que seria um semestre proveitoso e estava animada. Ia faltar algumas vezes para aplicação do Infliximab, mas não estava preocupada. Ia dar conta sim. Queria estudar e me preparar para o semestre seguinte, onde faria estágio em todas essas áreas. No final do semestre estava muito cansada, mas também muito satisfeita. Tinha conseguido passar em todas as matérias, e passei bem. Estava ansiosa e preparada para o próximo, que seria estágio. Mas esse período só no próximo post, referente a 2006.

Como disse anteriormente, a segunda aplicação deveria ocorrer 2 semanas após a primeira e, em 17 de agosto, internei novamente. Vale ressaltar aqui que, durante as duas semanas, não senti nada, nenhuma reação negativa ao remédio. Dessa vez, a aplicação foi menos angustiante pois nada como já ter experiência. Fiquei mais tranqüila e não tive febre. Resolvemos então que eu poderia ir embora naquele dia mesmo e evitar de ficar no hospital sem haver necessidade. Novamente passei bem e em 15 de setembro fiz a terceira aplicação, 4 semanas após a última. Tudo correu muito bem, mas pedi para sair do hospital somente no dia seguinte. Queria ficar lá, dormir e descansar. A próxima vez seria daí a 8 semanas e, durante esse período todo, não senti absolutamente nada de anormal. As dores da sacroileíte haviam diminuído um pouco, e a fístula continuava quieta desde a cirurgia. A doença também parece que deu uma trégua. Enfim, estava respirando mais aliviada.

Nesse período, comecei a me deixar mostrar mais. Explico. Esse tempo todo, venho me fazendo de forte, com boa aceitação da doença, ajudando outros pacientes a ficarem mais calmos (em função do GADII), tentando levar uma vida normal à medida do possível. Mas todos os desgostos, desgastes, decepções, inquietações, chateações, mágoas... tudo isso ficava guardado comigo. Primeiro porque sempre achei que não devia ocupar nem preocupar ninguém. Segundo porque não tinha comigo alguém capaz de digerir tudo aquilo que sentia, de uma forma tranqüila, sem levar essa outra pessoa a um sentimento de piedade muito grande. Na verdade, como havia afastado todo mundo de mim, não sentia abertura e afinidade em ninguém que estava por perto. Minha filha, muito nova. Não queria que ela participasse desse outro lado meu, não achava justo. A juventude deve ser a melhor época a ser lembrada durante a vida adulta. A adolescência é uma fase muito importante e queria que ela a vivesse da forma mais intensa possível. Não havia necessidade de passar a ela mais preocupação do que as que ela já tinha, com ela mesma e sua vida, e com as coisas que ela via acontecer comigo. Sempre quis uma vida melhor para ela, com mais conforto e liberdade. Já que eu não podia proporcionar-lhe isso, pelo menos não levaria mais problemas.

Retomando... estava vivendo um momento em que não me preocupava mais em me “segurar”. Voltei a chorar. Dentro do meu quarto, embaixo do chuveiro. Ninguém via, mas chorava. E assim conseguia um pouco de alívio. Até que, em uma consulta com minha médica no mês de setembro, começamos a conversar sobre minha vida particular, alguns defeitos e dificuldades que tinha, meu vício com o cigarro, entre outras coisas. Lembro que foi um momento em que não me segurei. Chorei como uma criança. Várias cenas da minha vida começaram a passar pela minha cabeça. E pela primeira vez comecei a sentir um pouco de pena de mim mesma. E quando descobri que estava com esse sentimento, entrei em desespero. Ali mesmo, no consultório. Sentir pena de mim mesma, era tão horrível quanto me sentir injustiçada por Deus. Minha crise foi tão violenta que a médica achou que eu podia estar em meio a um surto. Nessa mesma consulta ela redigiu um relatório, me encaminhando a um colega psiquiatra. Eis o relatório:

“Ao Dr. XXXXXXXXX, solicito que avalie a paciente Alessandra Vitoriano de Castro, portadora de doença de Crohn há anos (em acompanhamento contínuo), que está fazendo sintomas psiquiátricos sugestivos de distúrbio bipolar. Vem em uso de fluoxetina há 3 anos (doses variando de 20 a 40 mg/d neste período). Peço que após sua avaliação encaminhe da melhor maneira.”

Para quem não sabe, o distúrbio bipolar é aquele em que o paciente vive dois momentos distintos e extremos: o da depressão e o da euforia. Eles se alternam e são complicados. Sabia como funcionava, conhecia os sintomas pois havia estudado o assunto na faculdade. Entendi perfeitamente os motivos que minha médica teve ao suspeitar que podia ser algo do tipo, mas sabia, em meu íntimo, que não era bipolar. O que estava acontecendo é que deixei aparecer um lado meu que desde então vivia escondido. E claro que isso assustou muita gente. Guardei o relatório e não procurei nenhum profissional da área. Queria arriscar. A idéia de tomar mais medicamentos não me agradava. Se ela achasse, mais à frente, que eu ainda estava muito instável emocionalmente, aí então tomaria alguma providência. Mas não naquele momento.

Só para constar, nesse período eu estava com uma estenose importante no reto. A minha “sorte” é que as fezes eram pastosas e não apresentavam, com isso, dificuldades em sair. Mas estava tão estenosado que a anja me deu um instrumento metalizado para levar prá casa e introduzir no ânus diariamente para evitar que estenosasse mais ainda, um dilatador (ela chamou o instrumento de "vela"). Mas não consegui fazer uso, infelizmente. Aquilo era demais para mim naquele momento...


Quando foi se aproximando a época da quarta aplicação do Infliximab, refiz os exames de sangue e decidimos por uma clínica hematológica que fazia esse trabalho e já tinha experiência com o Infliximab e que também era conveniada com meu plano de saúde. O resultado do exame estava bom. As alterações eram mínimas e já esperadas pelo uso dos medicamentos. A hemoglobina e a albumina estavam dentro do limite e só os leucócitos estavam um pouco baixos. De posse desse resultado fui até a clínica no dia marcado (09 de novembro) e fiz a infusão. Tudo correu bem e, após uns 40 minutos em observação fui liberada para ir embora. A partir de agora, as aplicações aconteceriam sempre de 8 em 8 semanas, portanto a próxima seria somente em 2006. E nesse mês também suspendemos a mesalazina.

Quanto às minhas outras atividades, tudo correu de forma tranqüila. No GADII as reuniões aconteceram regularmente, com palestras interessantes e mais pessoas se agregando. Estávamos crescendo. Um exemplo disso foi no mês de outubro, quando aconteceu aqui, em Belo Horizonte, o encontro Brasileiro de Gastroenterologia. Fomos convidados a participar com um stand durante todo o evento, a fim de divulgar o grupo. Distribuímos bastante panfleto e fizemos parte de um programa de TV, na Rede Minas, onde pudemos contar ao público em geral, o que eram as Doenças Inflamatórias Intestinais. Foi muito bacana esse programa, que durou cerca de uma hora, e com uma entrevistadora muito simpática. Esse programa fez com que uma rede de TV local procurasse-nos também. Demos nova entrevista e foi muito legal poder divulgar a doença e contar nossos casos. E com isso, o GADII estava sendo divulgado...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

28- E começou 2005...

2005!
Retomando a dor nas costas...

Minha médica havia redigido um relatório para o seu amigo ortopedista, fazendo o encaminhamento para que eu levasse no dia da consulta. E no final de janeiro foi a consulta.

“Ao Dr. Xxxxxxx, encaminho a paciente, portadora de Doença de Crohn grave(íleo-cólon-reto-perineal), com dor importante na coluna, já com TC anexa. Solicito sua avaliação.”

Esse médico me transmitiu uma tranqüilidade enorme. Não quis ver os raios-x nem a TC no início da consulta. Primeiramente conversou, fez minha anamnese e depois o exame clínico. Durante o exame já mostrei onde sentia a dor e para onde ela irradiava. Na verdade, eu achava estranho aquela coisa de hérnia de disco, porque a dor que sentia não era no meio das costas. Era na lateral, nas duas laterais, no começo da região glútea. E quando a dor estava muito forte, ela irradiava pela parte posterior das coxas até os joelhos. Ele também disse que pela localização e forma da dor, não parecia ser hérnia de disco. Somente então foi olhar os exames. Pela TC ele confirmou a presença das hérnias, mas não ficou satisfeito. Conversou comigo e disse suspeitar de uma espondilite, proveniente da Doença de Crohn. Espondilite é uma outra doença inflamatória que acomete a coluna vertebral e sacroilíaca. É uma inflamação das vértebras. Pode também ocorrer lesão das articulações adjacentes às vértebras. Pediu que consultasse uma amiga de trabalho reumatologista. Eis o encaminhamento:

“À Dra. Xxxxxxxx, encaminho a paciente, portadora de D. de Crohn, com quadro de lombalgia há cerca de 2 meses. Não apresenta déficit neurológico nos MMII. Radiografias mostram pequena diminuição do espaço discal L5-S1 e TC de L3-S1 mostra hérnias discais que não explicam o quadro de dor da paciente (espondilite secundária a D. de Crohn?)”

Como tinha um encaminhamento, ficou mais fácil chegar até essa médica. Ela também não tinha vaga para os próximos 2 meses e eu não podia esperar tanto. O difícil foi passar pela secretária.
No dia da consulta fui levando todos os exames que possuía e os encaminhamentos da minha médica e desse ortopedista fantástico, amigo dela. Essa reumatologista conhecia bem a Doença de Crohn e explicou que alguns problemas nas articulações podem surgir, oriundos dela. No meio da consulta ligou para minha médica para trocarem impressões. Foi uma consulta interessante. Encontrei mais uma médica que, primeiro fez a anamnese, depois o exame físico e somente depois olhou para os exames laboratoriais e clínicos. Isso me tranqüilizava porque aprendi durante o curso de enfermagem que um diagnóstico bem feito é baseado, principalmente nestas duas ações. Os outros exames devem ser somente para confirmação do diagnóstico.

Durante a conversa das duas ao telefone, decidiram tentar um medicamento novo no mercado, o Infliximabe. Já havia ouvido falar a respeito, mas a única coisa que sabia a respeito dele é que era caríssimo. Como era indicado para problemas reumatológicos e Doença de Crohn, sabia que conseguiria pela SES, mas teria que esperar a abertura de processo e toda a burocracia existente. Em função dessa demora toda íamos tentar pelo meu convênio. Achei estranho, mas ela me explicou que esse medicamento é aplicado por infusão intra venosa, ou seja, é necessário puncionar uma veia e deixar o remédio ser infundido lentamente, pois ele é misturado ao soro. Todo esse processo demora cerca de 2 horas. E o certo era fazer uma internação hospitalar inclusive para ficar em observação em função dos (vários) efeitos colaterais. Por se tratar de uma internação, todo medicamento usado durante esse período, o convênio deverá cobrir. Entendi mas não confiei muito nessa hipótese, já que o motivo da internação era a aplicação do medicamento, algo já programado. E uma vez iniciado o tratamento, ele deveria obedecer intervalos regulares entre uma aplicação e outra. Ela já havia conseguido a liberação do Infliximabe para outros pacientes por esse convênio, mas era para pacientes em tratamento de Artrite Reumatóide, e não Doença de Crohn. E, finalizando a consulta, ela disse que sua opinião era de que o diagnóstico não era de Espondilite, e sim, Sacroileíte. Sacroileíte é a inflamação das articulações entre o osso sacral e o ilíaco (um dos ossos da bacia).

Peguei então o pedido, relatório e cópia de laudos de exames e fui até a administração do meu convênio conseguir a autorização para internação e aplicação do medicamento. Como eu imaginava eles não liberaram. O motivo que alegaram foi que o medicamento só era liberado para pacientes de Artrite Reumatóide. Providenciei de entrar com toda a papelada então pela Secretaria de Saúde. Ia demorar o processo, mas paciência.

Durante esse tempo, estava em fisioterapia diária. Mas não resolveu o problema da dor. Somente quando faziam uma compressa com gelo e choquinho, já no final da sessão, é que sentia um pouco de alívio. Aprendi então a fazer essa compressa de gelo em casa. Sem o choque, mas já me aliviava bem. Vou explicar o que era esse choquinho. Na linguagem dos profissionais da área, é o tratamento através de TENS (em inglês = Transcutaneous Electrical Nerve Stimulations), que traduzindo significa Estimulação Elétrica Transcutânea dos Nervos. É um pequeno aparelho que envia impulsos elétricos em determinada parte do corpo para bloquear o sinal de dor. São eletrodos colocados na parte do corpo onde está o foco da dor. A corrente elétrica que é produzida é suave, mas consegue impedir as mensagens de dor que seriam enviadas ao cérebro. O alívio pode durar por horas.

Em fevereiro tive outra perícia na Previdência Social e, dessa vez, consegui uma consulta com um médico fantástico. Ele sabia sobre a Doença de Crohn, conhecia minha médica e tinha um sobrinho com Retocolite Ulcerativa! Foi tudo de bom. Ele me examinou, conversou, fez perguntas. Gostei tanto que guardei uma cópia do relatório:

“A paciente é portadora de doença de Crohn íleo-cólica-reto-perineal em uso crônico de medicação: prednisona (corticóide), azatioprina, mesalazina, fluoxetina, metronidazol. Vem sob controle, sempre em exames laboratoriais e endoscópicos. No momento, em fisioterapia devido à sacroileíte enteropática, que é parte da doença. Evoluindo com muita dor e dificuldade de deambulação e de permanecer assentada por períodos longos”

Fiz as 20 sessões de fisioterapia que estavam programadas e a reumatologista disse que eu poderia parar porque alguns exercícios poderiam prejudicar ainda mais a situação, caso fosse realmente Sacroileíte.

Refiz exames laboratoriais. Estava sem anemia mas continuava com a Albumina baixa. Mais clara de ovo!

Marquei então um Ressonância Magnética para fechar o diagnóstico. Exame chique! O resultado veio digitado, com as chapas e um CD-Rom com o exame completo. Muito legal. Mais uma vez gostaria de lembrá-los que transcrevo o laudo dos exames detalhadamente pois assim as postagens podem ser lidas e avaliadas por profissionais da área de saúde. É importante os dados técnicos para melhor avaliação. O Laudo da RM:

Ressonância Magnética das Articulações Sacro-ilíacas
Indicação Clínica:
-Doença de Crohn -Lombalgia e suspeita de sacroileíte com início há 5 meses.
Aspectos Técnicos:
Foram realizadas as seguintes seqüências, sem a administração endovenosa de meio de contraste paramagnético: -Cortes sagitais ponderados em T2 com supressão de gordura. -Cortes coronais ponderados em T1 e em DP com supressão de gordura. -Cortes axiais ponderados em DP com supressão de gordura.
E após a administração endovenosa de meio de contraste paramagnético: -Cortes axiais e coronais ponderados em T1 com supressão de gordura
Aspectos Observados: -Articulações sacro-ilíacas com superfícies articulares regulares, com espaços articulares preservados, sem sinais de espessamento cortical ou de alteração do sinal da medular óssea adjacente às margens sacral e ilíaca correspondente. -Ausência de realce anômalo pelo meio de contraste paramagnético. -Corpos vertebrais de morfologia preservada, sem alterações do sinal ou realce anômalo pelo meio de contraste paramagnético. -Canal vertebral e forames de conjugação de configuração usual. -Planos musculares pélvicos avaliados de configuração anatômica e sem anomalias do sinal. -Observa-se sinais de espessamento irregular das paredes do reto e do cólon sigmóide, notando-se importante realce pelo meio de contraste na topografia dos mesmos, com discreto borramento dos planos gordurosos peri-retais.
Impressão: -Sinais de espessamento do reto e do cólon sigmóide com importante realce pelo meio de contraste na topografia dos mesmos e discreto borramento da gordura peri-retal sugerindo um processo inflamatório nesta topografia. -Articulações sacro-ilíacas preservadas.”

O exame não confirmou a Sacroileíte na verdade, mas a médica juntou todos os exames e me deu esse diagnóstico.
Após esse exame a reumatologista me receitou um remédio para dor: Cetorolaco de Trometamina (sublingual). É um antiinflamatório e um analgésico potente. Realmente, quando a dor estava muito forte, ele aliviava bastante. Foi o mais eficaz até agora. Durante esse tempo todo da doença, e aqui, nessa época, já fazem 5 anos, pude avaliar bem a questão da dor. Cada um de nós tem seu limiar de dor. Quanto mais dor você sente, mais você altera esse limiar. Eu já estava num ponto em que aquela dor que antes era insuportável para mim, já não era mais. Era suportável. E em outros momentos pude perceber também que a gente acostuma a sentir dor. Aí sim, eu via problema. Isso não era um bom sinal. Você alterar seu limiar tudo bem, mas sentir a dor e não se importar com isso era sinal de que o emocional estava muito abalado. E confesso que, por vários momentos nesses 5 anos, me senti assim. Sem me importar com a dor.


Continuando... esse problema da dor na região lombar não tinha um tratamento. Eu deveria somente controlar a dor e evitar exercícios fortes e que forçassem a região. Na minha cabeça era mais um caso sem solução prá minha vida. A doença de Crohn que não tem cura, a fístula que não pode ser fechada cirurgicamente, e agora a sacroileíte, que também não tinha cura. As duas últimas como conseqüência da primeira.

Como se não bastasse, fui à dentista, depois de 3 anos! Estava com uma cárie e um dente quebrado. E minha dentista disse que meus dentes ficarão cada vez mais fracos devido ao Crohn e que minha língua estava ficando branca, também por causa do Crohn. Sinceramente? Não sabia mais se me estressava ou aceitava passivamente essas coisas que estavam acontecendo comigo. Por dentro eu estava cheia de cacos... e por fora me mostrava forte, inteira! Não queria ninguém com pena de mim, nem eu mesma. Por isso fingia que estava tudo bem. Não sei se estava certa, mas foi o que me segurava.

Nessa mesma época fui apresentada ao famoso portal da internet: o orkut! Me cadastrei e comecei a fazer parte desse universo procurando por amigos de outras épocas. Consegui achar alguns. Os que procurei inicialmente não encontrei, mas depois fui localizando outros. Aí comecei a pesquisar as comunidades. Achei a comunidade do banco em que trabalhei e reencontrei alguns colegas de trabalho; na comunidade da escola em que me formei, enfim, foi muito legal. Mas ainda não estava satisfeita. Queria usar esse recurso com algo que me preenchesse atualmente. Resolvi jogar a palavra “crohn” na busca pelas comunidades. Apareceram 6 comunidades com assuntos relacionados à doença. Entrei em cada uma delas, mas me detive em uma. Parecia interessante. Tinha vários associados e tópicos legais no fórum. Resolvi me associar e me apresentar. De cara comecei a me relacionar com 5 pessoas que também tinham a Doença de Crohn. Achei aquilo fantástico! Um rapaz, mergulhador, de Porto Alegre. Muito gente boa! Uma portadora do Rio de Janeiro, muito alto astral, que ri à toa e super amiga. Uma daqui de Minas Gerais (Ouro Branco), mas tivemos pouco contato na época. Fui retomar essa relação com ela agora, final de 2006. Um rapaz também do Rio, mas que perdi o contato com o passar do tempo. E uma pessoa de São Paulo. Passamos a conversar bastante pelo MSN, uma ferramenta de comunicação da Internet.

Vocês podem me dizer: “mas e o GADII?” Bom, no GADII eu coordenava o grupo. Me envolvia com o desenvolvimento da reunião, as cartas, atendia aos telefonemas dos associados, ouvia o relato detalhado de cada um, que na verdade era um desabafo, enfim, fazia de tudo para atender aos pacientes e ajudá-los, mas não podia fazer o mesmo com nenhum deles. Sentia falta de me expor também. E é aí que essas pessoas entram com tamanha importância na minha vida. Com eles podia conversar, me abrir em relação à doença e as chateações que sentia, os incômodos, etc.

Então... isso tudo foi no primeiro semestre de 2005.

Esse ano é bem extenso de detalhes... Vamos com calma para que nenhum se perca.

Até o próximo post!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

26- A Fístula em 2004

Olá, gente! Espero que todos estejam bem...

Bom, relatando agora o que se refere à Doença de Crohn, vamos ao início do ano de 2004.

Tudo estava caminhando tranquilamente, dentro do esperado, desde a cirurgia da fístula perianal (reto-vaginal). Ela ainda estava lá e ainda sentia uma protuberância no local da cirurgia. Às vezes, durante o banho, apertava um pouco o local. O que eu sentia não chegava a ser dor, mas incomodava. De vez em quando saía um pouco de secreção. Mas como não tinha febre não nos preocupávamos tanto. Mas fisicamente o ato de andar fazia com que o local do abcesso ficasse em destaque. Todas as vezes que vazava um pouco de secreção da fístula pela vagina, eu controlava com o uso de absorvente íntimo feminino. O problema era que, quando a secreção ficava mais abundante, significava que o abcesso aumentava de tamanho e a dor aumentava bastante também. Sabia que seria sempre assim. Podia fazer várias cirurgias, mas a fístula ainda ia me dar bastante trabalho. Quando o abcesso aumentava, era difícil o uso contínuo de calcinha. A costura ficava bem próxima ao local do abcesso e, além de incomodar por causa da dor, apertava a região com o elástico e aumentava o vazamento da secreção. Aí ficava sem alternativa. Sem calcinha não havia como usar o absorvente e com a calcinha a dor e secreção aumentavam muito. Fui obrigada então a fazer uso de compressas regularmente. Colocava a compressa em toda a parte esquerda da virilha, onde ficava o abcesso, e, por cima, vestia a calcinha. Imaginem minha situação. Me sentia usando fralda. Tive que parar de usar calças compridas justas. Isso durou por muito tempo. Em função disso tudo iniciamos o uso de metronidazol (750 mg/dia).


Em março repeti os exames de rotina. Estava tudo bem, só os Linfócitos estavam baixos. Mas não era preocupante por causa dos medicamentos que estava tomando. Eles provocavam alterações desse tipo. Só para lembrar, ainda estava tomando: azatioprina, metronidazol, fluoxetina e mesalazina (500mg).

Durante o segundo semestre, comecei a sentir as secreções da fístula de forma mais abundante. Mas comecei também a sentir uma dor nas costas, na região lombar, muito forte. Minha médica aconselhou a procurar um ortopedista conhecido dela, mas não consegui marcar consulta para aquela época. Cheguei a ir no pronto atendimento do hospital, mas nas chapas de raio-x não apareceram nada. Consideramos dor lombar mesmo e fiquei tomando antiinflamatório. Mas passava um tempo, a dor voltava. E cada vez mais forte. Chegou no ponto em que qualquer posição significava dor: em pé, deitada, sentada. Então no segundo semestre, no final do ano (prá variar), tudo eclodiu. Mas vamos por partes...

Primeiro foi a fístula. Novos picos febris, secreções purulentas, dores. Em agosto havia feito os exames de rotina. Parece até que minha médica estava prevendo que precisaria deles de qualquer jeito.

O hemograma novamente acusou anemia e infecção. A Proteína C Reativa (PCR) também estava elevada (13,7 mg/l), confirmando a presença de processo inflamatório. A Albumina havia abaixado novamente (3,1 g/dl). Recomecei a ingestão excessiva de feijão, couve e clara de ovo. Sabia que só com isso, estaria repondo o que meu organismo precisava, mas cansava não ter um período longo de sossego.

Em agosto também fiz novamente o exame “Trânsito do Delgado”. O laudo:

“Trânsito delgado constando de 6 filmes 35 x 43, numerados na sequência de sua realização, anotando-se o horário a partir da ingestão do bário.

Dificuldade de trânsito na região do íleo terminal, que se apresenta de calibre reduzido e com espessamento de suas pregas mucosas.

Cólon descendente pouco contrastado de calibre reduzido.

Conclusão: Aspecto de lesão granulomatosa de íleo terminal. Crohn.”


Fiz também um Ultra Som do Abdomen Total que não acusou alterações significativas.

Um mês após o hemograma fiz outro para comparar. Todos os itens alterados já estavam normais novamente. A anemia havia regredido.

Mas a fístula era a única que não queria saber de regressão. E em setembro já estava incomodando o suficiente. Cheguei a sentir dores terríveis. Era o abcesso novamente. Fui até o hospital, fiz exames e fui liberada. A única alteração é que estava com febre.

Liguei pra minha médica e ela estava viajando (acho que algum congresso). Não me lembro dos detalhes porque era uma época de muita dor e, quando fico assim, deixo minha mãe cuidar de mim e das questões práticas porque meu raciocínio fica completamente debilitado. Mas recordo de ter ido até o consultório para uma consulta de emergência e uma das outras duas médicas me atenderem. Fui examinada e ela disse que era o abcesso realmente e que era necessário drenar. Mas como ele estava muito grande, seria necessário anestesia local porque eu sentiria muita dor. E anestesia só era possível no ambulatório do hospital onde ela e minha médica trabalhavam e onde fiz minhas internações anteriores. Ela se sensibilizou com o tamanho da minha dor e combinou comigo de nos encontrarmos no hospital naquele dia mesmo. Ela acabaria as consultas e iria imediatamente para lá.

Como minha médica, ela também é um doce de pessoa. Chegou no hospital bastante atrasada por causa das consultas e do trânsito. Não importava. Queria mesmo fazer a drenagem e minorar aquela dor. Solicitou então a uma funcionária da Enfermagem para providenciar todo o material necessário e pediu que eu deitasse de barriga para baixo. A partir daqui lembro de tudo, inclusive da dificuldade de se chegar até o abcesso com a posição em que estava. Foram necessárias tiras enormes de esparadrapo que eram presos em minha nádega até uma ponta da maca, fazendo com que a região ficasse exposta. Quando eu já estava presa de forma satisfatória ela aplicou a anestesia local. Mas juro a vocês que senti cada vez que o bisturi encostava no abcesso. E não era só sensação, era dor também.

Dessa vez chorei. Imaginem se não tivesse a anestesia? Enfim, drenagem realizada.
Voltei para casa, mas com a sensação de que aquela parte da minha história ainda não havia terminado.

Na semana seguinte fiz uma revisão com minha médica, que elogiou o trabalho da colega. Mas com algumas semanas o abcesso voltou. E voltou mais forte que antes. Não havia alternativa: nova cirurgia. Marcamos para final de outubro, onde haveria uma semana sem aulas na faculdade. Estava na época do estágio e o atestado não abonava faltas quando a aula era prática. Tinha trabalhos a apresentar como avaliação e estava preocupada. Pedi então a um amigo querido (querido ao extremo!) um notebook emprestado e fui levando para o hospital. Ia ficar 4 dias internada e teria tempo de sobra para trabalhar.

A cirurgia em si foi bem tranqüila, principalmente porque já sabia como seria a recuperação. Seria dolorosa, mas pelo menos já sabia disso na prática, não só teoricamente. Em minha ficha cirúrgica estavam os seguintes itens:

“Paciente em decúbito ventral, assepsia, identificação do trajeto fistuloso de fístula perianal em ferradura latero-posterior. Identificado fístula reto-vaginal. Tratamento cirúrgico. Hemostasia.”

Em meu sumário de alta constavam os seguintes itens:

MOTIVO DA INTERNAÇÃO: Cirurgia proctológica; portadora de doença de Crohn grave, com fístula perianal e reto-vaginal infectada.
(...)
RECOMENDAÇÕES: repouso relativo no leito. Não andar muito e não carregar peso. Lavar a região perianal e vulvar 4 vezes ao dia, sem sabonete, de preferência em água morna. Secar bem com toalha. Usar compressas para aparar a secreção.”

Saí do hospital com a seguinte terapia medicamentosa:

• Ciprofloxacina 500 mg – 12/12 horas – antibiótico
• Ranitidina 300 mg – 1 comp. à noite – inibe a secreção ácida gástrica
• Corticóide 20 mg – 1 comp. pela manhã
• Metronidazol 250 mg – 8/8 horas
• Azatioprina
• Fluoxetina

Coquetel e tanto, heim?

Preocupada com o andamento da doença e do consumo desse tanto de remédio, resolvi procurar um médico homeopata em novembro. A consulta foi muito boa e pude conversar bastante. O receituário foi assim:

• Nitric Acidum cH 30 – 6 glóbulos pela manhã – indicado para úlcera de duodeno
• Staphisagria – 6 gotas à noite por 4 dias, depois uma vez por semana – indicado para a secreção.

Nem preciso dizer a dificuldade que senti. Além dos remédios alopáticos, que não eram poucos, ainda tinha que tomar bolinhas e gotinhas. Não deu outra. Em dezembro já havia desistido da homeopatia. Mas não desisti do nada. Após a cirurgia e após essa consulta, as dores nas costas voltaram muito fortes. No começo de dezembro (10/12/04), fui até o pronto atendimento do hospital e relatei a dor, que estava muito forte.

Mas esse relato deixo para o próximo post...

Bjim a todos!

terça-feira, 13 de maio de 2008

23- Finalizando o ano de 2003

Vamos então à segunda metade do ano de 2003.

Após a cirurgia da fístula, recomecei a corticoterapia (uso de corticóide). Ajudou e muito em minha recuperação, mas, é claro, engordei horrores. Já era a segunda vez que engordava dessa forma, desde que descobri a doença. Sabia que era efeito do corticóide e que quando parasse de tomá-lo, voltaria ao meu peso. Era verdadeiramente uma sanfona (engorda, emagrece, engorda, emagrece...). Brincava dizendo que possuía dois guarda-roupas: um quando tomava corticóide e outro quando não tomava. Só que essas “engordas” me deixavam muito prá baixo e chateada. Nem preciso dizer como estava minha estima, não é mesmo?

Comecei o 3º período do curso de Enfermagem. Na faculdade, as coisas corriam tranqüilas. Estava no pique dos estudos novamente e as disciplinas estavam muito interessantes e motivadoras. Admito que estava com muitas dificuldades de estudar. O método que tinha há anos atrás, na época de colégio, não funcionava mais. Estava ainda em adaptação. Reaprendendo. Mas esse desafio me fazia bem. Eu me sentia viva e lutando por algo além da sobrevivência por causa da doença.

Um fato bom aconteceu... aliás, um fato muito importante, que abriria portas mais à frente. Por causa da “briga” com a SES, conseguimos que uma das integrantes do GADII, que trabalhava na época na Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALEMG), marcasse uma audiência pública com um dos deputados que integravam o Comitê de Saúde. A audiência foi marcada para agosto/03 e várias pessoas estavam presentes, incluindo o representante do Ministério da Saúde. O deputado em questão falou, minha médica, representantes do governo, e eu em nome do GADII. Ainda não tinha muita noção do que isso tudo representaria à nossa luta. Meu discurso não foi programado, falei o que me veio à cabeça. Inclusive fiquei emocionada.

A sessão terminou, todos se cumprimentaram e me preparei para ir embora, levando comigo mais essa experiência. Quando estava saindo, fui abordada por uma mulher, que se identificou como advogada do Ministério Público. Disse que se interessou pela causa e gostaria que eu fosse depor (ou algo parecido, não entendo bem esses termos) no Ministério Público. Conversei com o pessoal, minha médica e achamos que isso sim, já era uma vitória. No dia marcado compareci e dei meu depoimento. Anexamos os documentos e relatórios necessários e tive a promessa de que eles conseguiriam que a portaria fosse cumprida. E realmente a promessa se cumpriu. Desde então, todos os medicamentos da portaria estão disponíveis na SES de Belo Horizonte para os pacientes de Doença de Crohn. E, se algum dia qualquer um desses medicamentos faltasse, poderíamos recorrer ao Ministério Público para que a questão fosse resolvida de uma forma mais rápida e sem prejuízo à saúde.

Essa pequena conquista atraiu os olhares de vários profissionais para o GADII. Começamos a ser mais respeitados como grupo e vários médicos chegaram para apoiar freqüentando as reuniões e indicando pacientes. Um médico muito amigo da minha médica foi levando, em uma das reuniões, seu filho, bacharel em psicologia, que estava disposto a aprofundar no assunto, já que a medicina considera o fator desencadeante das DII o desarranjo emocional. E conhecemos então esse psicólogo que se apresentou e se dispôs a contribuir com o grupo da forma que pudesse. Conversei com ele e sugeri que fizesse uma espécie de convênio com os pacientes do GADII, por dois motivos. Primeiramente porque sabíamos que a maioria dos pacientes que freqüentavam as reuniões eram de poder aquisitivo baixo e não fazia parte da realidade deles um acompanhamento psicológico. Segundo, pela experiência que tive, não havia muito interesse em fazer terapia pois a maioria dos profissionais nem sequer sabiam o que era uma Doença Inflamatória Intestinal. Isso, aliás, foi o que me desmotivou a procurar novamente um. Ele topou fazer o convênio e, de imediato, conseguiu 3 clientes, todos do GADII, sendo que uma era eu mesma.

Fiz algumas sessões e foi a melhor experiência com psicólogo que tive. Era outro nível de interesse, diferente do profissional frio, calculista. Ele conhecia detalhes da doença, as manifestações, tudo. Após dois meses tive que parar porque fiquei realmente sem dinheiro. O que recebia de auxílio-doença era a conta certa prá pagar a faculdade (sem ela ia precisar de mais que terapia), o plano de saúde (meu e da filhota), condução e algumas despesas essenciais.

Mas esse semestre não podia caminhar sem intercorrências, certo?

Estamos agora em outubro/03... Tive retorno na médica e a fístula estava bem, obrigada!

A partir dessa consulta, minha medicação iria dar uma estabilizada.

  • Azatioprina 150 mg – 2 comp. pela manhã e 1 à noite
  • Mesalazina 2,0 g/dia – 2 comp de 8/8 horas
  • Fluoxetina – 20 mg/dia – à noite

Mas aqui também começa uma confusão que me tirou do sério... Eu tinha uma perícia da Previdência marcada para o dia 16, a fim de renovar o auxílio-doença, mas recebi uma carta transferindo para o dia 21. Nesse dia estava marcada uma prova na faculdade, no mesmo horário da perícia. Liguei então para o famoso 0800 de lá e consegui remarcar para 12 de novembro/03.

Compareci na data marcada e fiquei esperando. O médico chamou todos os pacientes, mas em momento algum citou o meu nome. Questionei uma funcionária a respeito e ela anotou meu nome para ir até a lista do médico consultar meu horário correto. Depois de uns 20 minutos ela retorna dizendo que meu nome não constava na lista do perito. Mostrei então a minha carta com a marcação e remarcação, quando telefonei no mês anterior. Ela então verificou no sistema e descobriu que, devido a uma greve ocorrida pelos peritos, meus dados não foram computados, acusou um código “DCI há mais de 60 dias”. Disse a ela que, por ser erro do sistema e não meu ou dela, que não sairia dali sem a minha consulta. Ela disse que realmente não seria possível e marcou uma nova consulta com um médico contratado pela Previdência.


Resultado disso tudo foi que fiquei sem receber o benefício de outubro e novembro/03 e também o décimo terceiro salário. Isso porque o médico que me atendeu em dezembro/03 abriu automaticamente um novo número de benefício para mim. Comecei a receber por esse número em janeiro/04, referente a dezembro/03. Mas os meses que citei acima, fiquei sem receber. Esse assunto só seria resolvido em novembro/04, mas chegarei lá ainda. Só gostaria que imaginassem como estava meu psicológico. Sem dinheiro no final de ano, com matrícula para pagar da faculdade, compra de material escolar e uniforme da minha filha.... afff... parece que nunca ia ter um pouquinho de sossego. Era um problema atrás do outro. Para ser sincera, nem conseguia “curtir” a doença em si. Tinha sempre um tanto de outras coisas acontecendo. O problema é que não eram coisas boas...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

22- Ainda a Fístula...

Continuando o ano de 2003 e ainda em Fevereiro, mudamos a dosagem do imunossupressor (azatioprina). Passamos para 150 mg ao dia. No relatório para a SES, justificando o aumento da quantidade, foi escrito que era necessário aumentar a dose devido à recrudescência de sintomas. Comecei a tomar 2 comprimidos pela manhã e 1 comprimido à noite.

Nesse interim, minha médica fez drenagem de secreção do abcesso com pûs pela vagina, referente à fistula, e disse que a mucosa do canal anal estava irregular e em processo inflamatório. Receitou Mesalazina enema. A mesalazina é um antiinflamatório intestinal e, por ser enema (líquido a ser introduzido pelo ânus) atua com mais rapidez.

Abaixo, o esquema de aplicação constante na bula para vocês entenderem como é a colocação:

E eu achava que supositório era ruim... mas o enema nem se compara! O que me fez não desistir foi saber que dependia desse processo via ânus para melhorar com mais rapidez.

Enquanto isso, voltei para o segundo período na faculdade, mas nem imaginava como faria para pagar as mensalidades. Isso estava acabando comigo por dentro. Ia guardando esses pensamentos e sentimentos todos para mim. Não deu outra.... em Março voltei a ter secreções vaginais e febre. Mas dessa vez a secreção era mais espessa e, no lugar do abcesso, sentia muita dor. Quando ficava sentada muito tempo, começava a incomodar. Avisei minha médica e no dia da minha consulta, já não suportava nem ficar sentada, tamanha a dor na região.

Enquanto estava na mesa de exames do consultório, ela deu umas "apertadas" no abcesso. Nem preciso dizer o que tive vontade de gritar, né? Doeu demais. Com isso, conseguiu drenar um pouco e aliviar a dor. Mas ela disse que só aquilo não resolveria. Drenou daquela forma para que eu sentisse um pouco de alívio, mas logo estaria do mesmo jeito ou pior. O melhor seria drenar no bloco cirúrgico com anestesia e bisturi. Ainda bem que eu estava sentada. Se estivesse em pé poderia cair, tamanho foi o susto. Ela ainda disse que a glândula de Bartholin esquerda estava inchada (glândula que secreta muco para hidratar a região da vulva, tem uma de cada lado).

(desenho esquematizado de uma fístula como a minha)

Saí do consultório e comecei a providenciar os exames necessários para o risco cirúrgico. No Hemograma, as únicas alterações foram a hemoglobina e o hematócrito que estavam baixos (anemia... de novo ou ainda?) e os Linfócitos com 16%. O exame cardiológico também estava normal. Pronto! Encarar o hospital novamente...

Antes da cirurgia, comecei a sentir outro tipo de dor no mesmo local do abcesso. Era uma dor que me fazia curvar o corpo. Se eu estivesse sentada, até pulava da cadeira. Fiquei sabendo que eram “espasmos” do assoalho pélvico. Espasmos são contrações involuntárias e repentinas. O assoalho pélvico já mostrei na figura do post anterior. Agora, juntem esse espasmo e a dor do abcesso que, claro, era cutucado nesse momento. Não via a hora de fazer a drenagem.

No dia 15 de abril de 2003 estava na recepção do hospital logo cedo, esperando a parte burocrática da internação ficar pronta. Ia operar naquela manhã e, se tudo corresse bem, dormiria no hospital e voltaria para casa na manhã seguinte. Finalizado o processo da papelada, já fui direto para o Bloco Cirúrgico. Na verdade, queria ver cada detalhe das salas, dos equipamentos e de tudo que fizesse parte daquele mundo que eu escolhi participar: a área da saúde.

Mas estava um pouco nervosa e não consegui relaxar para observar os detalhes. Lembro de ficar esperando, dentro do Bloco Cirúrgico, sentada em uma cadeira de rodas. Aproveitei e rezei. Pedi a Deus que me ajudasse naquele momento e que guiasse as mãos de minha médica da melhor forma possível e que a cirurgia atendesse ao propósito. Sabia que era uma cirurgia simples, mas, mesmo assim, a gente fica inseguro. Mas eu tinha fé de que tudo ia se ajeitar.

Quando minha médica chegou, me levaram para a sala onde ficaríamos e deitei na mesa (dura e fria). Ela ligou um aparelho de som, com músicas tranqüilas. Aquilo me acalmou um pouco. Todo mundo conversava. Nem parecia que eu estava ali e que seria o foco principal daquela “reunião”. Até que minha médica chegou perto e me apresentou o anestesista (jamais esquecerei aqueles olhos azuis... rs). Ele explicou que seria uma anestesia local e que induziria meu cérebro a dormir. Puncionaram uma veia em mim, para que o soro pudesse correr, juntamente com o anestésico. Depois disso, o anestesista pediu que eu contasse de 1 a 10, só que de trás prá frente. Acho que contei até o 8 (10, 9, 8,...)... Fiquei sabendo depois que, enquanto estava anestesiada e “apagada”, me viraram de barriga para baixo pois o posicionamento assim seria melhor. Como eles fizeram isso? Minha médica jurava prá mim que eu ajudei, mas não me lembro de nenhum detalhe após a contagem. Depois disso minha primeira lembrança era a chegada no apartamento com meus pais e meu bebê à minha espera.

Abaixo, transcrevo os dizeres técnicos do processo da internação e cirurgia:

ACHADOS CIRÚRGICOS: fístula reto-vaginal a esquerda baixa, com processo infeccionado.
TÉCNICA CIRÚRGICA
: dissecção e ressecção do trajeto fistuloso após sua identificação com estilete. Hemostasia. Correção da musculatura do assoalho pélvico.”

Dissecção é a exploração de uma determinada região do corpo através de cortes.
Ressecção
é a remoção de um órgão ou parte de um corpo.
Hemostasia
é o controle da hemorragia.

A cirurgia em si é muito simples, mas a recuperação.... Doía para sentar, mas não porque encostasse em algum lugar. Era apenas o fato de abaixar e forçar. Doía na cadeira, na poltrona, em cima de almofadas, no vaso sanitário, enfim, em qualquer lugar em que fizesse essa posição. Fui até a faculdade só para fazer provas. Ia sempre levando uma almofada. Foi bem demorada essa fase. Continuei com secreção e processo inflamatório no períneo. Entramos novamente com o corticóide 20mg.

Bem, aqui entra um fato importantíssimo... Eu saí do emprego no final de agosto/02, e já estamos em abril/03. E durante esse tempo todo não consegui arrumar emprego. Imaginem a minha angústia. Continuar estudando sem poder pagar o curso e sem perspectivas de conseguir emprego. Até alguns “bicos” que fazia (trabalhos no computador, aulas particulares) estavam escassos. Parece que todas as dificuldades chegam juntas, na mesma hora. Angústia era pouco para o que sentia. Mas guardava tudo prá mim. Ninguém sabia como me sentia por dentro. E dessa vez não era por opção, mas justamente por falta dela. Não enxergava ninguém com quem pudesse me abrir verdadeiramente. O Crohn é tão danado que visualmente ninguém desconfia que você tem uma doença. Qualquer coisa que você for comentar ou reclamar, fica parecendo frescura. O jeito era guardar mesmo.

Uma preocupação que todos sabiam que eu tinha era o lado financeiro e, no mês de maio/03, uma tia me alertou que, como eu não conseguia emprego em função da doença, eu podia requerer, junto à Previdência Social, o pedido de auxílio-doença. A Previdência concedia um prazo de carência que ela não sabia ao certo de quanto tempo era, mas que achava que meu caso ainda estava no prazo. Realmente estava. Providenciei toda a papelada exigida (laudos de exames, relatório médico, carteira de trabalho, documentos pessoais) e fui para a fila (hoje existe agendamento via telefone: 135). Não vou aqui detalhar o tamanho das filas que precisávamos enfrentar, porque todo mundo assiste reportagens na televisão a respeito. Nessa época, o prédio da Previdência que eu deveria comparecer ficava em frente a um restaurante. E como chegava lá ainda escuro, víamos coisas absurdas: ratos enormes e brancos entrando e saindo por frestas das portas de aço do restaurante (ainda fechado), ambulantes abrindo tampas de bueiros das calçadas e retirando de dentro frutas e legumes que mais tarde seriam vendidos nas ruas, e mais coisas que me chocaram menos. Fiquei muito assustada com essas imagens. Continuando, gostaria de frisar que só consegui senha para atendimento na quarta tentativa. Foi um dia em que cheguei na fila às 04:00h da manhã. E saí de lá às 14h. Mas não reclamei em momento algum. Nem na fila, com os outros que reclamavam sem parar, nem com minha família, nem na faculdade, nem comigo mesma. Estava feliz porque podia estar conseguindo a chance que precisava para continuar o curso e me livrar daquela preocupação. Enfrentar aquelas filas não eram nada se comparado com o alívio que sentiria, caso conseguisse o auxílio-doença.

Dei entrada com a papelada e marcaram a minha primeira perícia. Se passasse por ela, depois só haveriam retornos para a definição do cancelamento do benefício ou continuidade. No dia agendado, estava lá com novo relatório médico e meus documentos. O médico mal olhou em meus olhos. Leu o relatório, digitou todo seu conteúdo, imprimiu o relatório da perícia, pediu que eu assinasse e me deu uma via. Lá marcava uma nova data para uma nova perícia. A partir daquele momento começaria a receber o auxílio-doença.

Saí de lá cansada, com os pés e pernas muito inchados. Estava tão cansada que nem sentia fome. Cheguei em casa, entrei no chuveiro, tomei um banho prá relaxar e caí na cama. Tudo que eu queria era esticar meu corpo. Só levantei bem depois para comer alguma coisa, mas estava aliviada. Poderia continuar estudando por hora. Não conseguia trabalhar na situação em que estava, após a cirurgia da fístula e com minhas intercorrências ao banheiro. Quanto à faculdade, seria menos difícil frequentar. Era somente pela manhã, podia faltar, caso precisasse, e se minha médica achasse que eu estava abusando, me dava um atestado médico e eu receberia a matéria completa em casa. Portanto, continuei meu curso.

Um pouco antes das aulas desse semestre terminarem, em junho/03, dei entrada na Secretaria de Saúde com o pedido para começar tratamento com mais um outro remédio: Mesalazina. Eis o relatório:

“A paciente é portadora de Doença de Crohn íleo-reto-perineal, em uso de imunossupressor (azatioprina) e mesmo assim em crise (fístula reto-vaginal). Necessita mesalazina para controle da crise em associação ao medicamento já em uso.”

Bom... esse medicamento não era distribuído pela Secretaria da Saúde daqui de Minas Gerais. Mas já existia uma portaria (nº 1.318/02), do Ministério da Saúde, onde afirmava que tal medicamento estava incluído na lista de medicamentos excepcionais que deveriam ser fornecidos gratuitamente aos pacientes de Doença de Crohn. Resolvi então, entrar numa “briga”.

Qualquer mobilização que eu pensasse em fazer precisava antes de provas reais de que a SES não possuía o medicamento a ser fornecido. Portanto, entrei com os papéis para abrir novo processo. Fiz a requisição e aguardei o parecer técnico da SES. No parecer constava que o medicamento não estava disponível.

De posse desse parecer, consegui a ajuda de um advogado que impetrou um Mandado de Segurança com pedido de liminar contra a SES de Minas Gerais. Aleguei várias coisas:

  • ser portadora da Doença de Crohn;
  • necessidade do uso contínuo da Mesalazina com suas respectivas dosagens;
  • o preço do medicamento na praça;
  • citei a portaria do Ministério da Saúde;
  • o parecer técnico da SES;
  • a falta de cura da doença, e que o objetivo do tratamento é o controle dos sintomas e das complicações;
Com isso, requeri a concessão de liminar para a provisão gratuita do medicamento, independente de licitação.

No dia 31 de julho/03 o Juiz decidiu que a SES deveria promover a aquisição urgente e imediata do medicamento. A liminar foi deferida para que eu pudesse adquirir o medicamento através da SES enquanto houvesse recomendação médica. Essa foi a primeira vitória que levei para o GADII...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

18- Resultado da Enquete (1)



Olá a todos!

Uma pausa nos meus depoimentos...

Como vocês puderam observar, na coluna da direita do blog existe uma enquete. Várias pessoas responderam e registro aqui o resultado final da primeira enquete:


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Quais os medicamentos que você faz uso?

Imunossupressor - 48%

Corticóide - 29%

Sulfassalazina - 14%

Mesalazina - 37%

Remicade - 14%

Outro(s) - 14%

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Essa pesquisa mostra uma tendência interessante. Os profissionais médicos estão utilizando a Mesalazina para controle da doença. Antes, a maioria fazia apenas uso do imunossupressor.

Outro dado interessante é que o corticóide ainda continua sendo o antiinflamatório mais potente para o tratamento das crises na Doença de Crohn, apesar dos efeitos indesejáveis a curto e longo prazo. É raro um paciente que ainda não tenha feito uso.

E a sulfa está ficando para trás, afirmando o que alguns profissionais dizem: é um medicamento mais "fraco" e com mais resultados positivos em quem tem Retocolite Ulcerativa.

Outros medicamentos existem para o tratamento da Doença de Crohn, mas ainda não são muito utilizados, haja visto que apenas 14% dos votantes fazem uso.

Legal... espero que participem da nossa próxima enquete! Copiei uma existente na Comunidade do Orkut que indico e, para as próximas, aceito sugestões!!!

Bjim...

domingo, 30 de março de 2008

16- A saga continua... 2002!

Após a minha primeira internação, resolvi me concentrar um pouco mais na doença, pelo menos tentando entendê-la melhor. Como poderia lutar contra ela sem saber de seus pontos fortes e fracos?

Comecei a melhorar e, em janeiro/02 resolvi que poderia ter novamente a chance de viver bem. Isso incluía alimentação e retorno à minha vida social, dessa vez com mais controle quanto à quantidade de evacuações. Seria difícil me reaproximar das pessoas que eu convivia antes, porque durante o início do Crohn (antes e após o diagnóstico) fui afastando todo mundo da minha presença. Me isolei. Não queria conviver com as pessoas e ter que sair correndo para o banheiro toda hora. É muito constrangedor. Mas estava disposta a deixar novas pessoas se aproximarem de mim.


Passei em consulta e diminuímos o corticóide para 10 mg/dia. O exame físico estava muito bom em relação à mucosa intestinal e o plicoma continuava edemaciado.

Fiquei mais relaxada e consegui aproveitar mais os detalhes dos meus dias. Passei a conviver melhor com meus colegas de trabalho, minha filha, minha família. E foi justamente nesse período que resolvi voltar a estudar. Meu antigo sonho de estudar Enfermagem começou a virar realidade.

Como uma atividade dessas promove mudanças na vida da gente! Passei a ser uma pessoa mais alegre, aberta a novas experiências. Mas também fiquei apreensiva. A cobrança agora seria muito maior. Eu já não era uma adolescente indecisa. Era uma adulta (32 anos) e sabia exatamente o que queria estudar para me realizar profissionalmente. E sabia que essa cobrança viria das pessoas ao meu redor, mas principalmente de mim mesma. E me sentia na "obrigação" de conseguir, para ser exemplo para minha filha, e não decepção. Senti a diferença na minha vida, dentro de mim e nos outros. A expectativa era grande e tive receio da doença voltar a ficar ativa. Controlei minha alimentação ao máximo e tentei regular meu emocional porque a última coisa que queria era parar com tudo. De novo não.

Mas em maio/02, meu organismo resolveu dar o ar da graça. Como eu consegui cercá-lo de todas as formas para que o intestino continuasse funcionando normalmente, ele resolveu atacar por outro órgão: a pele. Isso mesmo... uma dermatite violenta. E dessa vez suspeitaram até de Doença de Crohn na pele! Depois de alguns dias, não conseguia nem andar direito, de tão ferida que estava atrás dos joelhos. Entre as minhas pernas, nas dobras das coxas com a região da vagina, estava em carne viva. Para vocês terem idéia de como eu estava, não conseguia nem usar roupa. Isso mesmo, roupa nenhuma. Nem mesmo roupa íntima... imaginem uma calça comprida! E, prá variar, medicamento nenhum resolvia.

Voltei pro corticóide 20 mg/dia e a ciprofloxacina por 5 dias. Usei, paralelamente, uma daquelas receitas de sabedoria dos nossos antepassados: água de amido de milho. Você coloca uma colher de amido de milho em uma vasilha e mistura com água. Vira um líquido branco espesso. Aí você passa nos locais que coçam e, até mesmo nos que estão feridos. A água seca e fica aquele pó do amido, parecendo um talco. Claro que estou falando isso aqui para que vocês entendam o processo. Não quer dizer que em qualquer coceira e/ou dermatite isso vai resolver. Sei que, aos poucos, minhas áreas afetadas foram secando e, em alguns dias, estavam só as manchas, sem as coceiras. Fiquei cansada, fisica e emocionalmente. Será que não ia conseguir mais viver meus momentos emocionais intensos sem que o meu corpo falasse mais alto? A impressão que eu tinha era que a doença surgiu justamente para me bloquear. Não como castigo, pois não considero Deus injusto, mas como freio mesmo.

Aproveitei que estava de licença e fui também ao ginecologista para que avaliasse as lesões da dermatite na vagina. Estava tudo sob controle e fizemos os exames de rotina, inclusive ultra-som pélvico. No US veio no laudo a existência de um mioma no útero medindo 1,1 x 1,1 cm. Segundo o médico, tamanho muito pequeno para preocupar. Com esse tamanho, nada pode ser feito. Tudo bem... mas era mais uma “coisinha” para a minha lista, né?

Resolvi fazer o vestibular da PUC no meio do ano para relembrar a emoção e o nível das provas. Algumas coisas deviam ter mudado do tempo em que prestei vestibular, até agora. Achei até engraçado estar no meio daquele tanto de gente adolescente e pós-adolescente. Mas foi legal, me senti “velha”, mas foi legal sim. Sempre gostei de conviver com os jovens e achei que isso podia contar a meu favor. Fiz as provas. Não é que passei???

Custei a acreditar!... E praticamente sem estudar! Isso foi de fundamental importância para mim. Me fez acreditar novamente na minha pessoa. Eu tinha capacidade. Mais uma vez dei uma “mexida” na minha estima.

Momento de decisões.

Em julho ainda, passei em consulta novamente. Suspendemos o corticóide e amitriptilina. Mantivemos o metronidazol, azatioprina e entramos com fluoxetina 20 mg/dia (antidepressivo).
Para começar a estudar, teria que parar de trabalhar. Parando de trabalhar, onde arrumar dinheiro para pagar a faculdade? A PUC é uma Universidade privada e uma das mais caras que existe. Resolvi arriscar.

Comecei a procurar emprego, sem sucesso. Não há emprego de meio horário que pague, pelo menos, um salário mínimo. E olha que a mensalidade era um pouco mais que dois salários-mínimos. Nessa procura de emprego descobri outra coisa. Nas entrevistas ou preenchimento de ficha, sempre perguntam se você possui alguma doença. Se eu mentir e conseguir o emprego, rapidinho eles vão descobrir que menti. Se falar a verdade, corro o risco (enorme) de não ser escolhida. Não consegui emprego.

Juntamente com essa situação, comecei a sentir um outro problema desabrochando. Tinha vontade e necessidade de conversar sobre a doença com alguém. Mas não queria que fosse com alguém da família e nem com algum amigo. Queria conversar com alguém que realmente entendesse, na prática, o que era a doença. E no meu campo de acesso, a única pessoa capaz disso era minha médica. Mas ainda não era o que queria. Ela sabia de tudo sim, e muito até! Mas precisava de alguém que sentisse o que eu sentia. Desde as dores, os incômodos, até os constrangimentos. Queria alguém que também tivesse a Doença de Crohn! Precisava saber de outros casos, de outros pacientes, de outros sintomas.

Na consulta seguinte expliquei essa vontade à minha médica e ela disse que outros pacientes portadores de Crohn já haviam manifestado essa vontade também. Dessa nossa conversa surgiu a idéia de reunir todos os pacientes da clínica que era portadores de DII. Contarei a vocês o resultado desse encontro nos próximos posts.

Hoje contei por alto meu ano de 2002: algumas manifestações extra-intestinais, medicação, decisões, etc. Tentarei trazer algo mais sobre essas manifestações extras e também esclarecimentos sobre alguns exames (temas que o pessoal tem pedido por e-mail). O Mark me ajudará.

Se cuidem e até a próxima!

Bjim!

domingo, 23 de março de 2008

14- Aprendendo a Crohn-viver (II)

Continuando...

Chegando no hospital (8:30h), me levaram para o pronto-atendimento (PA). Fui colocada em uma maca e pedi ao Clínico de plantão que contactasse minha médica, que trabalhava naquele hospital. Por sorte minha, ela estava lá, mas já havia começado uma cirurgia. Sim... minha médica também é cirurgiã. Perfeito!

Quando terminou a cirurgia foi ao meu encontro no PA, pediu uns exames de sangue, de urina e disse que iria me internar por alguns motivos: para analisar o que estava acontecendo de fato comigo, para realizar nova colonoscopia (já estava na época e aproveitaria a internação), e para que eu pudesse descansar. Isso mesmo, descansar. Foi ali que minha ficha caiu. Realmente era o que eu mais precisava no momento e não havia percebido. Passei o ano todo e mais alguns meses, “enfiada” no meu trabalho e em outras coisas. Contei às pessoas que conviviam comigo sobre a doença mas, observando melhor, não havia ainda assumido o Crohn como uma doença que faria parte da minha vida para sempre. Mesmo que ela estivesse em remissão, haveria sempre a necessidade de controle para que não entrasse em atividade. E sabia também que, quanto mais rápido eu a assumisse verdadeiramente, mais rápido conviveria melhor com ela.

Até essa conversa com ela, já estava também com dor de cabeça forte (nunca havia sentido) e minhas pernas doíam de uma forma irritante. A dor era interna e não passava de jeito nenhum. Fui internada às 21h.... fiquei mais de 12 horas no pronto atendimento. Estava assustada, pois tudo era novidade prá mim. Demorou todo esse tempo porque não haviam vagas em apartamentos, como cobria o meu plano de saúde. Fiquei com medo de ir para enfermaria, sem ninguém conhecido, numa situação tão nova e repentina. Preferi ficar na urgência, vendo de tudo, mas com alguém conhecido comigo (mãe ou pai). Foi então, minha primeira internação pela Doença de Crohn.

Vale ressaltar aqui, alguns pontos interessantes na papelada da minha internação. Fiz hemograma, com alterações pequenas, meu sódio estava baixo (129 mEq/l) sendo que o normal é entre 135 a 145 mEq/l, e urina. Fiz também tomografias do Abdômen superior e inferior, cujas alterações foram somente essas:

“espessamento parietal dos cólons transverso, descendente sigmóide, compatível com impressão clínica.”

Bom, isso ocorreu em novembro/01. É bom lembrar que, dessa vez, tudo aconteceu em outro hospital, diferente daquele da primeira colonoscopia. Havia mudado de plano de saúde e minha médica atendia nesse hospital particular, onde ela mesma marcou o exame e solicitou minha internação. Desde então, todas as internações foram (e ainda são) nesse hospital.

Vamos ao laudo da colonoscopia:


“Medicação: dormonid (sedativo)+ fentanil (análgésico opióide) + propofol (sedativo) Assistência do Anestesista e monitorização cardiorespiratória.

Duração 15 min.

Achados Endoscópicos: colonoscopia até o ceco em boas condições de preparo. Reto apresentando mucosa hiperemiada, granulosa, com ulcerações nas válvulas retais. Os segmentos colônicos encontram-se de conformação conservada, porém com edema importante, redução do calibre em vários pontos do cólon esquerdo. A mucosa apresenta-se com sinais de processo inflamatório atual grave, hiperemia, edema, ulcerações longitudinais profundas acometendo até o íleo terminal, poupando um pouco o cólon direito. Ausência de formações polipóides ou tumores em todo trajeto colônico e reto. Não foram identificados óstios diverticulares, bem como não há sinais diretos ou indiretos de espasticidade colônica. Não foram observados ectasias vasculares ou vasos de distribuição aberrante.


Conclusão: Doença de Crohn grave, íleo-cólica-perineal.


Nível atingido: ceco”



Alguns significados: edema é o mesmo que inchaço. Quando se fala em redução do calibre é o mesmo que diminuição da área interna naquele pedaço do intestino. Significa estenose. É importante isso porque aqui começa minha história com as várias estenoses pelo intestino. Mais um esclarecimento: existe a Doença de Crohn de caráter estenosante e a fistulizante.

As fotos do exame:

1- ceco

2- cólon esquerdo em área edemaciada

3- válvula íleo-cecal

4- cólon esquerdo

5- ângulo hepático

6- cólon sigmóide com úlceras

7- cólon transverso

8- cólon sigmóide

(imagem da localização dos cólons mais abaixo)


No dia seguinte ao exame recebi alta hospitalar, com as seguintes informações relevantes no sumário de alta:


“Motivo da internação: Doença de Crohn grave, com cefaléia, dor em MMII, calafrios, febre e diarréia.

Exames realizados: urina rotina (piúria e hematúria), Vídeocolonoscopia (doença ativa grave do ânus ao íleo terminal.


Tratamento: corticóide EV (endovenoso), antibioticoterapia, soroterapia.


Evolução: Melhora progressiva.

Exames de sangue controle normais, com exceção de hiponatremia – Albumina (2,2)


Diagnóstico da alta: Doença de Crohn.”



Para esclarecimentos a quem não detém o significado dos termos técnicos: piúria significa pûs na urina e hematúria, sangue na urina. MMII quer dizer membros inferiores. Hiponatremia é diminuição de sódio no sangue (explica as dores nas pernas);

Minha médica me disse que eu tive uma infecção urinária, mas que, paralelamente, alguns sintomas pareciam ser efeito colateral do novo medicamento. Me explicou que ele só começava a fazer efeito lá pelo terceiro mês de uso contínuo e que, nesse intervalo, alguns efeitos colaterais poderiam ocorrer. Alguns sintomas que senti poderiam ser esses efeitos.

Voltei para casa, após 9 dias de internação, com corticóide 20mg, Ciprofloxacina 500 por 3 dias (antibiótico), amitriptilina 25g (antidepressivo). Estava também mais consciente de que precisa cuidar mais de mim e com a impressão de que minha história com o Crohn estava só começando...

(imagem para identificação dos cólons no intestino grosso)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

7- Medicamentos


Olá!!!

Bom, ainda seguindo sugestão do pessoal que me manda e-mails, postarei sobre a medicação da Doença de Crohn, que não é muito diferente da medicação da RCU. Vocês já devem entender um pouco mais sobre as duas doenças e, por isso, perceberão agora que a medicação também depende do local onde a doença está agindo.

Alguns medicamentos só fazem efeito se for para "atacar" a doença no intestino grosso, outros no delgado. Algumas pessoas acham estranho ter a mesma doença e tomar medicamentos e dosagens diferentes. Eis o motivo.


Então... as DII possuem medicamentos divididos nos seguintes grupos:

AMINOSSALICILATOS

Sulfasalazina - Foi o primeiro medicamento com propriedades antiinflamatórias a ser utilizado no tratamento da doença de Crohn. Ela está indicada no tratamento das formas leves e moderadas da inflamação, particularmente aquelas que envolvem algum segmento do cólon. Estima-se que cerca de 20% dos doentes não conseguirão manter-se em tratamento com sulfasalazina, por alguma reação à droga, provavelmente relacionada com o componente sulfamidico. Seu efeito máximo de ação é esperado em torno da 3ª a 4ª semana.

Mesalazina (Ácido 5-aminosalicílico) - É considerado o verdadeiro componente antiinflamatório da molécula de sulfasalazina. Inicialmente indicado como alternativa medicamentosa, tem tido a preferência dos especialistas em todo o mundo, por ser tão eficaz quanto a sulfasalazina no controle da atividade inflamatória de formas leves e moderadas da DC, com menores efeitos secundários. A mesalazina é encontrada no Brasil nas formas de cápsulas e supositórios. Fiquem atentos ao seguinte: existem mesalazinas de 400mg e de 500mg. Se seu médico receitou de 400mg, não aceite a de 500mg e vice-versa. Pode ter certeza que fará diferença.


CORTICÓIDES

São utilizados no tratamento das agudizações manifestas em qualquer segmento do trato gastrointestinal. Não são eficazes na manutenção das remissões nem no tratamento de fístulas. Em uma revisão sistemática recente, a budesonida foi 13% menos eficaz que os corticóides convencionais na indução de remissão e foi inefetiva na manutenção de remissões. Existem várias marcas de corticóides no mercado. Os pacientes reclamam que o corticóide engorda e faz "estragos" no organismo, coisa até que podemos postar a respeito mais à frente. Mas lembrem-se que quando a crise é brava, apenas o corticóide tem esse "poder" de brecar a doença subitamente. Portanto devemos atentar para a questão do custo/benefício, certo?


IMUNOSSUPRESSORES

6 mercaptopurina (6-MP) e Azatioprina (AZA) - Os dados dessas duas medicações são analisados em conjunto, pois a azatioprina é convertida de maneira não enzimática a 6-mercaptopurina, e não há estudo mostrando superioridade entre elas. Podem ser utilizadas na manutenção de recorrências clínicas e cirúrgicas e no tratamento de fístulas. Tipicamente possuem um período de latência para o início do efeito, que situa-se em torno de 4 meses de uso continuado.

Ciclosporina - age inibindo a produção das interleucinas 2,3 e 4, fator de necrose tumoral alfa e interferon gama, pode ser útil em pacientes com doença inflamatória grave ou com fístulas.

Methotrexate - mostrou eficácia no tratamento das agudizações e na manutenção dos pacientes que entraram em remissão após o seu uso. Também tem sido usado no tratamento de fístulas.


ANTIBIÓTICOS

Metronidazol - Foi o primeiro antibiótico utilizado na doença de Crohn. Indicado não só para o controle da atividade inflamatória, como para a tentativa do fechamento de fístulas, especialmente as perianais e perineais. Também impede o "ataque" de fungos/bactérias nas fístulas expostas.

Ciprofloxacina / Claritromicina - Constituem boas opções, como alternativa, no tratamento da atividade inflamatória da DC.


ANTICORPO MONOCLONAL

Infliximab (Remicade®) - Esta substância preparada com parte de soros humanos e parte de animais, vem sendo a grande esperança do tratamento de formas complicada da doença de Crohn, principalmente quando acompanhadas de fístulas. Além de comprometer o desenvolvimento do evento inflamatório, anteriormente à sua instalação, tem, a seu favor, a grande comodidade de sua aplicação. Embora exija a via venosa, portanto de ambiente hospitalar, seu efeito pode durar semanas, sem a necessidade absoluta da utilização de outros medicamentos. Praticamente isento de efeitos colaterais importantes, náusea, fadiga, febre baixa e dor abdominal, este produto, quimérico, misto de humano e animal, pode ser aplicado em intervalos de 8 semanas, ou menos, como nos casos de fístulas.



Salientamos que citamos o nome genérico dos medicamentos. Os nomes comerciais são vários e não temos aqui a pretensão de favorecer nenhum laboratório específico. TODOS os pacientes de DII têm direito a esses medicamentos gratuitamente. Os dados referentes à medicação foram retirados do site do Ministério da Saúde:

http://dtr2001.saude.gov.br/sas/dsra/protocolos/do_d10_00.htm

Lá vocês encontrarão também os detalhes para participarem da distribuição gratuita desses medicamentos.

Até a próxima!