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terça-feira, 13 de maio de 2008

23- Finalizando o ano de 2003

Vamos então à segunda metade do ano de 2003.

Após a cirurgia da fístula, recomecei a corticoterapia (uso de corticóide). Ajudou e muito em minha recuperação, mas, é claro, engordei horrores. Já era a segunda vez que engordava dessa forma, desde que descobri a doença. Sabia que era efeito do corticóide e que quando parasse de tomá-lo, voltaria ao meu peso. Era verdadeiramente uma sanfona (engorda, emagrece, engorda, emagrece...). Brincava dizendo que possuía dois guarda-roupas: um quando tomava corticóide e outro quando não tomava. Só que essas “engordas” me deixavam muito prá baixo e chateada. Nem preciso dizer como estava minha estima, não é mesmo?

Comecei o 3º período do curso de Enfermagem. Na faculdade, as coisas corriam tranqüilas. Estava no pique dos estudos novamente e as disciplinas estavam muito interessantes e motivadoras. Admito que estava com muitas dificuldades de estudar. O método que tinha há anos atrás, na época de colégio, não funcionava mais. Estava ainda em adaptação. Reaprendendo. Mas esse desafio me fazia bem. Eu me sentia viva e lutando por algo além da sobrevivência por causa da doença.

Um fato bom aconteceu... aliás, um fato muito importante, que abriria portas mais à frente. Por causa da “briga” com a SES, conseguimos que uma das integrantes do GADII, que trabalhava na época na Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALEMG), marcasse uma audiência pública com um dos deputados que integravam o Comitê de Saúde. A audiência foi marcada para agosto/03 e várias pessoas estavam presentes, incluindo o representante do Ministério da Saúde. O deputado em questão falou, minha médica, representantes do governo, e eu em nome do GADII. Ainda não tinha muita noção do que isso tudo representaria à nossa luta. Meu discurso não foi programado, falei o que me veio à cabeça. Inclusive fiquei emocionada.

A sessão terminou, todos se cumprimentaram e me preparei para ir embora, levando comigo mais essa experiência. Quando estava saindo, fui abordada por uma mulher, que se identificou como advogada do Ministério Público. Disse que se interessou pela causa e gostaria que eu fosse depor (ou algo parecido, não entendo bem esses termos) no Ministério Público. Conversei com o pessoal, minha médica e achamos que isso sim, já era uma vitória. No dia marcado compareci e dei meu depoimento. Anexamos os documentos e relatórios necessários e tive a promessa de que eles conseguiriam que a portaria fosse cumprida. E realmente a promessa se cumpriu. Desde então, todos os medicamentos da portaria estão disponíveis na SES de Belo Horizonte para os pacientes de Doença de Crohn. E, se algum dia qualquer um desses medicamentos faltasse, poderíamos recorrer ao Ministério Público para que a questão fosse resolvida de uma forma mais rápida e sem prejuízo à saúde.

Essa pequena conquista atraiu os olhares de vários profissionais para o GADII. Começamos a ser mais respeitados como grupo e vários médicos chegaram para apoiar freqüentando as reuniões e indicando pacientes. Um médico muito amigo da minha médica foi levando, em uma das reuniões, seu filho, bacharel em psicologia, que estava disposto a aprofundar no assunto, já que a medicina considera o fator desencadeante das DII o desarranjo emocional. E conhecemos então esse psicólogo que se apresentou e se dispôs a contribuir com o grupo da forma que pudesse. Conversei com ele e sugeri que fizesse uma espécie de convênio com os pacientes do GADII, por dois motivos. Primeiramente porque sabíamos que a maioria dos pacientes que freqüentavam as reuniões eram de poder aquisitivo baixo e não fazia parte da realidade deles um acompanhamento psicológico. Segundo, pela experiência que tive, não havia muito interesse em fazer terapia pois a maioria dos profissionais nem sequer sabiam o que era uma Doença Inflamatória Intestinal. Isso, aliás, foi o que me desmotivou a procurar novamente um. Ele topou fazer o convênio e, de imediato, conseguiu 3 clientes, todos do GADII, sendo que uma era eu mesma.

Fiz algumas sessões e foi a melhor experiência com psicólogo que tive. Era outro nível de interesse, diferente do profissional frio, calculista. Ele conhecia detalhes da doença, as manifestações, tudo. Após dois meses tive que parar porque fiquei realmente sem dinheiro. O que recebia de auxílio-doença era a conta certa prá pagar a faculdade (sem ela ia precisar de mais que terapia), o plano de saúde (meu e da filhota), condução e algumas despesas essenciais.

Mas esse semestre não podia caminhar sem intercorrências, certo?

Estamos agora em outubro/03... Tive retorno na médica e a fístula estava bem, obrigada!

A partir dessa consulta, minha medicação iria dar uma estabilizada.

  • Azatioprina 150 mg – 2 comp. pela manhã e 1 à noite
  • Mesalazina 2,0 g/dia – 2 comp de 8/8 horas
  • Fluoxetina – 20 mg/dia – à noite

Mas aqui também começa uma confusão que me tirou do sério... Eu tinha uma perícia da Previdência marcada para o dia 16, a fim de renovar o auxílio-doença, mas recebi uma carta transferindo para o dia 21. Nesse dia estava marcada uma prova na faculdade, no mesmo horário da perícia. Liguei então para o famoso 0800 de lá e consegui remarcar para 12 de novembro/03.

Compareci na data marcada e fiquei esperando. O médico chamou todos os pacientes, mas em momento algum citou o meu nome. Questionei uma funcionária a respeito e ela anotou meu nome para ir até a lista do médico consultar meu horário correto. Depois de uns 20 minutos ela retorna dizendo que meu nome não constava na lista do perito. Mostrei então a minha carta com a marcação e remarcação, quando telefonei no mês anterior. Ela então verificou no sistema e descobriu que, devido a uma greve ocorrida pelos peritos, meus dados não foram computados, acusou um código “DCI há mais de 60 dias”. Disse a ela que, por ser erro do sistema e não meu ou dela, que não sairia dali sem a minha consulta. Ela disse que realmente não seria possível e marcou uma nova consulta com um médico contratado pela Previdência.


Resultado disso tudo foi que fiquei sem receber o benefício de outubro e novembro/03 e também o décimo terceiro salário. Isso porque o médico que me atendeu em dezembro/03 abriu automaticamente um novo número de benefício para mim. Comecei a receber por esse número em janeiro/04, referente a dezembro/03. Mas os meses que citei acima, fiquei sem receber. Esse assunto só seria resolvido em novembro/04, mas chegarei lá ainda. Só gostaria que imaginassem como estava meu psicológico. Sem dinheiro no final de ano, com matrícula para pagar da faculdade, compra de material escolar e uniforme da minha filha.... afff... parece que nunca ia ter um pouquinho de sossego. Era um problema atrás do outro. Para ser sincera, nem conseguia “curtir” a doença em si. Tinha sempre um tanto de outras coisas acontecendo. O problema é que não eram coisas boas...

3 comentários:

cleópatra disse...

Caramba Leca!!
O INSS é uma porcaria msm!! Os peritos insensíveis e uma lerdeza de dar dó a nós q mtas vezes precisamos do serviço. O pior é q contribuimos mensalmente com 11% do nosso salário!! É uma vergonha!! Olhe tb passei por apertos no inss, mas foram tantos q acabei preferindo voltar a trabalhar e confesso q não sei o q foi pior na época, pq dois meses depois fui demitida devido a DC. Mas tudo passa, né?? Hj nem ligo mais.. rs
Estou adorando seu blog!!
Outra coisa, vou ficar sem orkut por um tempo devido a virus entao me manda seu email please.
cleopatrabaptista@yahoo.com.br, pra mandar besteiras como faço com o Ricardo.
bjs!!

Leca Castro disse...

Ai, Cléo... vc é uma peça!

Adoro seus comentários...

Brigadim!!!

Anônimo disse...

Então interessante este blog parece bem desenvolvido.........bom trabalho :)
Amei faz mais posts assim !!