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domingo, 23 de março de 2008

14- Aprendendo a Crohn-viver (II)

Continuando...

Chegando no hospital (8:30h), me levaram para o pronto-atendimento (PA). Fui colocada em uma maca e pedi ao Clínico de plantão que contactasse minha médica, que trabalhava naquele hospital. Por sorte minha, ela estava lá, mas já havia começado uma cirurgia. Sim... minha médica também é cirurgiã. Perfeito!

Quando terminou a cirurgia foi ao meu encontro no PA, pediu uns exames de sangue, de urina e disse que iria me internar por alguns motivos: para analisar o que estava acontecendo de fato comigo, para realizar nova colonoscopia (já estava na época e aproveitaria a internação), e para que eu pudesse descansar. Isso mesmo, descansar. Foi ali que minha ficha caiu. Realmente era o que eu mais precisava no momento e não havia percebido. Passei o ano todo e mais alguns meses, “enfiada” no meu trabalho e em outras coisas. Contei às pessoas que conviviam comigo sobre a doença mas, observando melhor, não havia ainda assumido o Crohn como uma doença que faria parte da minha vida para sempre. Mesmo que ela estivesse em remissão, haveria sempre a necessidade de controle para que não entrasse em atividade. E sabia também que, quanto mais rápido eu a assumisse verdadeiramente, mais rápido conviveria melhor com ela.

Até essa conversa com ela, já estava também com dor de cabeça forte (nunca havia sentido) e minhas pernas doíam de uma forma irritante. A dor era interna e não passava de jeito nenhum. Fui internada às 21h.... fiquei mais de 12 horas no pronto atendimento. Estava assustada, pois tudo era novidade prá mim. Demorou todo esse tempo porque não haviam vagas em apartamentos, como cobria o meu plano de saúde. Fiquei com medo de ir para enfermaria, sem ninguém conhecido, numa situação tão nova e repentina. Preferi ficar na urgência, vendo de tudo, mas com alguém conhecido comigo (mãe ou pai). Foi então, minha primeira internação pela Doença de Crohn.

Vale ressaltar aqui, alguns pontos interessantes na papelada da minha internação. Fiz hemograma, com alterações pequenas, meu sódio estava baixo (129 mEq/l) sendo que o normal é entre 135 a 145 mEq/l, e urina. Fiz também tomografias do Abdômen superior e inferior, cujas alterações foram somente essas:

“espessamento parietal dos cólons transverso, descendente sigmóide, compatível com impressão clínica.”

Bom, isso ocorreu em novembro/01. É bom lembrar que, dessa vez, tudo aconteceu em outro hospital, diferente daquele da primeira colonoscopia. Havia mudado de plano de saúde e minha médica atendia nesse hospital particular, onde ela mesma marcou o exame e solicitou minha internação. Desde então, todas as internações foram (e ainda são) nesse hospital.

Vamos ao laudo da colonoscopia:


“Medicação: dormonid (sedativo)+ fentanil (análgésico opióide) + propofol (sedativo) Assistência do Anestesista e monitorização cardiorespiratória.

Duração 15 min.

Achados Endoscópicos: colonoscopia até o ceco em boas condições de preparo. Reto apresentando mucosa hiperemiada, granulosa, com ulcerações nas válvulas retais. Os segmentos colônicos encontram-se de conformação conservada, porém com edema importante, redução do calibre em vários pontos do cólon esquerdo. A mucosa apresenta-se com sinais de processo inflamatório atual grave, hiperemia, edema, ulcerações longitudinais profundas acometendo até o íleo terminal, poupando um pouco o cólon direito. Ausência de formações polipóides ou tumores em todo trajeto colônico e reto. Não foram identificados óstios diverticulares, bem como não há sinais diretos ou indiretos de espasticidade colônica. Não foram observados ectasias vasculares ou vasos de distribuição aberrante.


Conclusão: Doença de Crohn grave, íleo-cólica-perineal.


Nível atingido: ceco”



Alguns significados: edema é o mesmo que inchaço. Quando se fala em redução do calibre é o mesmo que diminuição da área interna naquele pedaço do intestino. Significa estenose. É importante isso porque aqui começa minha história com as várias estenoses pelo intestino. Mais um esclarecimento: existe a Doença de Crohn de caráter estenosante e a fistulizante.

As fotos do exame:

1- ceco

2- cólon esquerdo em área edemaciada

3- válvula íleo-cecal

4- cólon esquerdo

5- ângulo hepático

6- cólon sigmóide com úlceras

7- cólon transverso

8- cólon sigmóide

(imagem da localização dos cólons mais abaixo)


No dia seguinte ao exame recebi alta hospitalar, com as seguintes informações relevantes no sumário de alta:


“Motivo da internação: Doença de Crohn grave, com cefaléia, dor em MMII, calafrios, febre e diarréia.

Exames realizados: urina rotina (piúria e hematúria), Vídeocolonoscopia (doença ativa grave do ânus ao íleo terminal.


Tratamento: corticóide EV (endovenoso), antibioticoterapia, soroterapia.


Evolução: Melhora progressiva.

Exames de sangue controle normais, com exceção de hiponatremia – Albumina (2,2)


Diagnóstico da alta: Doença de Crohn.”



Para esclarecimentos a quem não detém o significado dos termos técnicos: piúria significa pûs na urina e hematúria, sangue na urina. MMII quer dizer membros inferiores. Hiponatremia é diminuição de sódio no sangue (explica as dores nas pernas);

Minha médica me disse que eu tive uma infecção urinária, mas que, paralelamente, alguns sintomas pareciam ser efeito colateral do novo medicamento. Me explicou que ele só começava a fazer efeito lá pelo terceiro mês de uso contínuo e que, nesse intervalo, alguns efeitos colaterais poderiam ocorrer. Alguns sintomas que senti poderiam ser esses efeitos.

Voltei para casa, após 9 dias de internação, com corticóide 20mg, Ciprofloxacina 500 por 3 dias (antibiótico), amitriptilina 25g (antidepressivo). Estava também mais consciente de que precisa cuidar mais de mim e com a impressão de que minha história com o Crohn estava só começando...

(imagem para identificação dos cólons no intestino grosso)

3 comentários:

Anônimo disse...

Gente,
eu me chamo Rodrigo, tenho Crohn ha 2 anos... faço o tratamento, mas não to aguentando mais... estou bem de saúde, mas não aguento mais ver Pentasa na minha frente, nem Imuran... já fiz 10 aplicações de Remicade...não sei o que faço... nem o que gritar... isso me acompanhara ate o fim da vida...mas penso em desistir as vezes... help-me...
Rodrigo
ruasmartins@hotmail.com
11-92304735

Patricia disse...

Ei, Rodrigo!
Só 2anos e vc já está desesperado? Calma, calma, calma. Muita calma nessa hora...
Olha, eu também estava assim transtornada. Não desesperei porque sempre pensei em meus filhos e isso me fez aguentar a dor. Mas foi no momento mais cruciante que a santa "Internet" colocou em meu caminho uma comunidade no orkut. Acho que a Alessandra até menciona tal comunidade aquí no blog.

Encontrei minha âncora nessa comunidade.

Reservei para essa afirmação um parágrafo exclusivo, porque de fato foi uma das coisas mais importantes em meu processo de aprendizagem sobre a doença.

Você não está só, meu amigo. Encontre seus pares nessa comunidade. Grite, esperneie, sofra, chore, tenha crises de riso. Seja lá como for, permita-se todas as emoções que aflorarem. MAS NÃO DESISTA! Por algum motivo que desconheço, sei que somos pessoas especialmente presenteadas por Deus!

Se você for de Minas Gerais, uma outra sugestão é participar da AMDII (www.amdii.org.br). O importante é não ficarmos sozinhos, não nos isolarmos.

"É preciso ter força, é preciso ter graça, é preciso ter gana, sempre..."

Você sempre terá amigos com quem partilhar sua vida!

Fique com Deus.

Patrícia

chacal.bike@yahoo.com.br disse...

ei. ei . muita calma nessa tenho crohn a 12 anos ja fiz 6 cirurgias mas tambem nao desisti usei bolsa de colostomia por 11 anos , estou tendo trabalho pra acustumar mas vou conseguir...wagner de santa barbara d oeste