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terça-feira, 22 de julho de 2008

33- Dois Dias de Dor... (DDD)

Várias pessoas me perguntaram se não me incomoda o fato de ficar falando de coisas tão íntimas (pessoais) e de momentos constrangedores que passei... vejam, sou Enfermeira e não sinto "nojo" de fezes ou coisas do gênero... rsrs... Claro que respeito as outras pessoas, mas acredito que se eu não for clara e explícita quanto aos detalhes da situação, as pessoas vão continuar sem entender porque essa doença é tão desgastante! Para você que está lendo e não tem Doença de Crohn, imagine ir ao banheiro 10 vezes por dia, todos os dias! Agora imagine essas idas acompanhadas de cólicas abdominais!

Sei que todo mundo evacua e posso usar vários termos existentes para designar tudo que está relacionado ao assunto: fezes, dejetos, efluente, flatos, gases, defecar, excremento, etc. Mas será que pensamos nisso na hora H? Pois converso com meus pacientes usando o termo popular "cocô", "pum" e só uso termos mais técnicos com quem também o faz.

E quanto aos relatos pessoais, acreditem... não estou contando nem a metade, em respeito às pessoas envolvidas nos episódios em si. Infelizmente preciso preservar algumas coisas, mas acho que vocês estão entendendo a fundo o que realmente é importante na vida de um paciente de Crohn, não?

Qualquer coisa, perguntem... gosto que tudo fique esclarecido e sem dúvidas, ok?

Voltando ao relato...

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Estamos em 2006, mês de março, acabei de chegar ao Pronto Atendimento do Hospital e fui internada com uma crise de cólica abdominal que jamais havia sentido antes... em 6 anos de Crohn...

Quando amanheceu eu já havia conseguido evacuar. Mas a minha médica me fez uma visita e disse que precisaria fazer alguns exames para descobrirmos o foco e o motivo da dor. Fui levada então para o serviço de radiologia do hospital. Íamos começar por Raio-X do Abdomen e do Tórax.
O laudo do Raio-X do Abdomen:

“Ausência de calcificações abdominais patológicas.
Distensão de alças de intestino grosso e delgado com níveis hidroaéreos, predominantemente à direita.
Reparos retroperitoneais parcialmente visualizados pela sobreposição gasosa.
Estrutura óssea visível sem alterações.”

O Raio-X de tórax:

“Ausência de sinais de consolidações evidentes.
Hilos pulmonares bem configurados.
Índice cárdio-torácico normal.
Aorta sem alterações radiológicas.
Estrutura óssea visível sem alterações.”

Fiquei a manhã toda para fazer esses dois exames. Estava louca de vontade de deitar. Voltei para a enfermaria e fiquei bem quieta o resto do dia. Ainda faltava fazer o Trânsito Intestinal, mas esse só seria possível no dia seguinte devido ao preparo do jejum. E lá fui eu, no dia seguinte, para o meu quinto exame de Trânsito Intestinal. E dessa vez sabia que seria o pior de todos. Sem lugar para esperar, deitada naquela mesa dura e fria por 4 horas. Ao chegar, tive que esperar uma meia hora ainda. Só então me entregaram o bário para tomar. Na segunda chapa fiquei com vontade de ir ao banheiro e avisei ao técnico. Ele disse que não podia para não estimular o intestino e apressar a passagem do bário. Perguntei a ele se tinham lido em meu prontuário que eu tinha Doença de Crohn. Novamente ouvi a sonora pergunta: “doença de que?”

Pedi para chamar o radiologista responsável, e nem esperei para saber se ele conhecia Crohn, já fui logo dando aula sobre o que era e que precisava usar o banheiro, caso contrário a sala deveria ser limpa com muito esmero em poucos minutos. Beleza... lá fui eu para o banheiro com a antipatia entre os funcionários conquistada. Me senti completamente desrespeitada, mas tudo bem. Só queria fazer o exame e voltar para a cama.

Após a terceira chapa, meu corpo doía bastante, principalmente nas costas. Era a sacroileíte reclamando daquela mesa dura. Mas se eu fosse falar qualquer coisa a respeito era capaz de me expulsarem de lá. Não sei se já disse antes, mas quando sinto dor forte e não consigo me livrar dela nem consigo alguém que me ajude, fico sem conseguir raciocinar direito. A dor era forte e, na chapa seguinte, o técnico colocou uma espécie de “bolha” dura no aparelho. Essa bolha encostava na minha barriga e ele tinha que apertar para tirar a chapa. Pronto! Era tudo que eu precisava. Mais dor. Comecei a chorar em silêncio. Fiquei o intervalo inteiro chorando sozinha, naquela sala escura e fria. Bateu um sentimento de solidão, desamparo, incompreensão. Me senti sozinha e cansada. Esse sentimento ainda me acompanha às vezes. Enfim, quando o exame acabou fui ao banheiro (pela quarta vez em 3 horas) e fui para o corredor, sentar na cadeira de rodas, esperando que algum funcionário viesse me buscar e levar pra cama novamente.


O resultado do exame de trânsito:

“Exame realizado após a ingestão oral de bário.
Presença de hérnia hiatal por deslizamento com estase do contraste em terços esofágicos médio e distal.
Trânsito intestinal processando-se em tempo usual.
Arco duodenal de configuração anatômica.
Discreta distensão de alças jejuno-ileais associada a áreas intercoladas de estreitamento e dilatações.
Espessamento do pragueado mucoso de alças jejunais.
Nota-se ainda isolamento de alça de íleo terminal em fossa ilíaca direita.
Não se observam sinais de fístulas e/ou obstrução intestinal.
Ceco sem alterações evidentes.
Estudo sumário do grosso intestino não evidencia alterações.
IMPRESSÃO: * Hérnia Hiatal • * Doença de Crohn com acometimento de alças jejuno-ileais.”

De posse desse resultado, conversei com a minha médica. Pelo exame do Trânsito, não havia sinal de obstrução, eu já havia evacuado bem, estava com muito pouca dor agora. Queria ir embora para casa. Era quarta-feira. Ela disse que me daria alta no dia seguinte, caso eu não tivesse nenhuma alteração durante a noite. E assim aconteceu. No dia seguinte saí do hospital com os seguintes dizeres no sumário de alta:

“MOTIVO DA INTERNAÇÃO: Paciente com história de doença de Crohn há vários anos, em controle clínico adequado, abriu quadro de dor abdominal, e redução da freqüência de evacuações após desgaste emocional. Nega febre e vômitos. Amilase no PA 127. Demais exames normais. Sem demais queixas.
DIAGNÓSTICO DE ALTA: Doença de Crohn, semi-obstrução intestinal
CID PRINCIPAL: R100 (Abdome agudo)”

Só para esclarecer, quando se tem alguns problemas físicos, entre eles a obstrução intestinal, o nível da amilase aumenta e deve-se fazer o exame para descartar uma pancreatite, por exemplo. A minha estava dentro da normalidade.

Me forneceu também um atestado para a faculdade, só para constar que estive internada e falando a verdade, já que não abonaria minhas faltas por estar em estágio. Mas quero abrir um parênteses aqui para explicar melhor essa minha pressa em ter alta. Sempre quis ficar o máximo de tempo possível no hospital e essa foi a primeira vez que tive pressa em sair.

Ou melhor... vou deixar para o próximo post porque esse aqui já ficou grande demais e encher vocês de informação de uma só vez pode fazer com que alguns detalhes se percam. Vou elaborar melhor a próxima etapa, após a minha saída do hospital e volto contando, ok?

Pessoal... votem na enquete que fica na coluna da direita do Blog... por favor?

Até!!!

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Um comentário:

Cacá BH disse...

oi leca... minha querida... vou ser sua colega na SES... fui te add no orkut e descobri que vc tem blog... como tenho blog tb, vim te conhecer...
nossa menina, agora te admiro ainda mais... jah te admirava desde o forum... grande beijo!!!