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terça-feira, 15 de julho de 2008

32- 2006: Ano Marcante...

Ufa! 2006... esse ano foi o mais agitado, pelo menos na minha concepção.

Vou acabar de relatar as aplicações do Infliximabe, antes de começar com os problemas de 2006: A quinta sessão aconteceu em 04 de janeiro de 2006. Tudo correu muito bem. Internei e saí no mesmo dia. A sexta aplicação foi em 01 de março e aconteceu da mesma forma. Internei, deu tudo certo e saí no mesmo dia. Vale constar que, em todas as sessões de aplicação desse medicamento, a única reação adversa que tive foi um pouco de febre na primeira sessão. Nas outras não senti absolutamente nada.

Ainda em janeiro, precisei levar até meu ex-marido a mensalidade e a matrícula da escola de nossa filha para ele pagar, pois já tinha mais de 1 mês (e isso é normal) que ele não aparecia. Chegando em seu estabelecimento comercial (ele tem um restaurante e ainda mora na ex-nossa casa), ainda estava fechado e só tinham os funcionários presentes. Passei a ele os dois boletos para que providenciasse o pagamento e ele começou a dizer que eu não deveria ter levado nada até lá, que nossa filha é que tinha que ter ido, que ela já tinha que ter responsabilidade, etc. Ela então tinha 14, quase 15 anos. E disse também que iria abrir uma conta em banco para ela, iria depositar o dinheiro todo mês e ela que deveria ir ao banco pagar a escola. Aí eu enfezei. Poxa... a única coisa que ele fazia era pagar a escola, mais nada. Nem sair com ela regularmente ele saía, e ainda queria que ela é que fosse prá fila no banco? Nem isso ele podia fazer? Discutimos feio e ele me pôs para fora do restaurante (à força).

Esse fato mexeu muito comigo, reabriu feridas que achei que estavam cicatrizadas e descobri que não estavam. Que medo de ter uma nova relação com qualquer homem que fosse! E já haviam se passado 15 anos desde que me separei!

Me desestruturei e, ao mesmo tempo, tive que fingir que estava tudo bem ao chegar em casa. Sempre pensei que meu Bebê não precisava saber desses detalhes por enquanto. O tempo se encarregaria de ir mostrando a ela algumas verdades. Quis diferenciar a relação dela com o pai da minha para com ele, mas estava chegando ao meu limite. Novamente engoli tudo e voltei para a minha vida. Só não achei que precisaria relatar isso publicamente, mas só o faço para que vocês entendam que os fatos se interligam e influenciam nas reações do corpo.

Outro fato ocorrido ainda em janeiro foi que levei meu Bebê até uma médica, uma clínica, pois ela reclamava de dores na região dos rins e de um caroço que surgiu na nuca. Fizemos exames completos e quanto aos caroços, fomos até um endocrinologista com o resultado de um ultra-som. Ele disse ser comum e que devia ser das suas alergias constantes (muitos espirros e nariz entupido). De qualquer forma eram caroços pequenos e não se podia nem pensar na hipótese de retirada. Quanto aos exames de sangue e fezes estavam todos normais, mas no de urina, apareceram cristais (+++). Isso era sinal de que, se o quadro não revertesse, ela poderia ter pedra nos rins em breve. É incrível como nunca estamos preparados para ver nossos filhos sofrerem. Foi uma luta íntima aparentar que estava tudo bem, mas por dentro eu estava um caco, imaginando minha filha sentindo dores, principalmente nos rins. Mas novamente engoli o que pensava e sentia, por não ter com quem dividir, e conseguimos reverter o quadro.

Em fevereiro minhas aulas recomeçaram. E agora já entrava no 7º período. Esse semestre o estágio seria dividido em 8 campos: Saúde Coletiva (centros de saúde) (3), neonatologia (2), maternidade (1), criança (1) e saúde mental (1). Por sorteio, meu grupo iria começar pelos Centros de Saúde. Adorei! Sabia que ia conviver direto com pessoas simples, a maioria de pouca instrução, e poderia praticar quase todas as disciplinas do semestre anterior. Nosso primeiro centro foi um que havia sido inaugurado recentemente. O movimento era bem fraco. Fizemos consultas de Enfermagem na triagem, nos exames ginecológicos aprendi a coletar o material cérvico-uterino para exame, e grupos de ajuda a gestantes e outro para mulheres em geral. Nos grupos preparávamos a teoria na linguagem delas e alguma atividade. No segundo Centro foi bem mais movimentado. Fizemos visitas a uma creche, um asilo e algumas casas da região junto aos Agentes Comunitários. Pudemos também aprender, na prática, como funciona a sala de vacinas. O acondicionamento, o manuseio da geladeira e da Rede de Frios, as aplicações. Tremi bastante na minha primeira tentativa. E, além das consultas ginecológicas, praticamos também a puericultura e, o que mais me marcou, foi a coleta de sangue. Nunca achei que seria capaz de puncionar uma veia. Foi um momento de extrema euforia para mim. Quando o paciente se foi e a professora chamou a próxima aluna, saí da sala rezando e agradecendo a Deus por tamanha benção. Só nesse campo fiz mais de 20 coletas. Foi fantástico. E o terceiro Centro de Saúde foi legal também. Participávamos mais das consultas ginecológicas e do tratamento de feridas. Em 2 dias vi feridas que nem supunha existir. E olha que já havia cuidado de dois casos no primeiro estágio. Um de úlcera venosa profunda (na perna) e outro de úlceras por pressão (escaras). Eram tão profundas que víamos, com nitidez, o osso. Tive um outro caso também, em outro hospital, de um senhor de seus 40 anos, que teve como diagnóstico, Gangrena de Fournier. É uma doença nos testículos. A dele era tão séria, que fez a cirurgia e os médicos tiveram que retirar toda a pele na pelve até o ânus e nas laterais pegando parte das coxas. Não foi uma ferida fácil de cuidar. Enfim, estava vendo agora, uns 6 tipos diferentes de ferida por dia. Cada uma necessitando de um tratamento específico. Foi somente aí que comecei a ter uma visão melhor dos tipos de curativos que deveria fazer. Foi muito interessante. Até então, foi a prática de enfermagem que mais me despertou interesse.

No começo de março, logo após a sexta aplicação do Infliximabe, refiz os exames de sangue. Estava tudo muito bom e sem alterações. Acho que foi o primeiro exame completo que fiz em que tudo estava dentro da normalidade.

No dia 19 de março, um vizinho, muito amigo nosso, veio a falecer. Estava internado com pacreatite já há dias e não resistiu. Aconteceu em um domingo. Eu e minha mãe tentamos ajudar onde foi possível. Enquanto estávamos no velório, minha vizinha (a esposa) disse que gostaria que eu passasse a noite lá, com ela e a filha. Outras pessoas ficariam, mas ela sabia que, caso eu ficasse, evitaria as conversas menos edificantes e tentaria ficar em prece. Avisei meus pais que ficaria e, como ia virar a noite e madrugada acordada, evitei comer algo fora do habitual para não sentir a vontade de ir ao banheiro. Além de ser um momento constrangedor, teria que ter muito cuidado pois, banheiro de cemitério não é o local mais higiênico que existe. Comi apenas pão de queijo e tomei café. Senti cólica umas 8 vezes durante esse período da madrugada, mas segurei para não evacuar. Entre uma cólica e outra aproveitava para fazer xixi. E assim fui até o dia amanhecer. As pessoas foram chegando e, na hora do enterro, segui com meus pais. De lá viemos embora. Ainda pedi para descer no meio do caminho porque precisava ir ao banco.

Quando cheguei em casa, (20 de março) umas 12h, entrei para o chuveiro, lavei a cabeça e tomei aquele banho em que se lava até a alma. Foi aí que relaxei. Saí do banheiro, e fui direto para a cama. Nem comi, de tão cansada que estava. Acordei mais tarde, umas 18h e senti fome. Fui até a cozinha, preparei um sanduíche de queijo com um copo de leite e comecei a comer. Foi aí que lembrei que, desde que cheguei em casa não havia sentido cólica nem evacuado. Fazia pouco mais de 24 horas que havia ido ao banheiro pela última vez. Nem me lembrava mais a última vez que isso havia acontecido. Após o lanche, deitei novamente para ver um pouco de TV. Meus pais haviam saído para uma reunião e estávamos só eu e meu Bebê em casa. Ela estava no computador, que ficava no escritório, e eu estava no meu quarto. Foi quando senti uma cólica se aproximando...

Levantei e fui ao banheiro. Sabia que teria um pouco de dificuldade porque as fezes deveriam estar mais duras que pastosas, pelo tempo em que ficaram retidas no intestino grosso. Não foi diferente. Deixa eu contar para vocês como é, e o que eu sentia quando vinha essa cólica: um calor enorme, falta de ar, bambeza e, ao mesmo tempo, frio (ficava toda arrepiada). Como não era a primeira vez que sentia essa dor, já sabia que tinha a necessidade de me abanar enquanto estava sentada no vaso sanitário. É uma sensação muito ruim, como se fosse desfalecer. Das outras vezes, sentia tudo isso por um tempo e conseguia evacuar depois. Daí melhorava e voltava ao normal. Mas dessa vez não aconteceu desse jeito. Ou melhor, não aconteceu. Não consegui evacuar.

E a cólica não diminuía. Senti que se ficasse mais tempo no banheiro iria desmaiar em uma posição bem engraçada, constrangedora e difícil para meu Bebê. Mas a consciência quase não existia. Estava com um vestido e sem calcinha. Voltei para meu quarto, deitei e tentei fazer uma prece. Mas não conseguia completar uma frase inteira, tamanha era a dor.


Nesse momento comecei a realmente sentir medo. Peguei o celular e liguei para a minha médica. Contei a ela como estava e ela orientou que pedisse em uma farmácia um medicamento que promovia uma lavagem intestinal instantânea, e que eu teria que injetá-lo pelo ânus (clister). Pedi meu Bebê para ligar na farmácia e pedir com urgência. Foi aí que ela viu que eu estava passando mal. Em 10 minutos o remédio chegou. Apliquei deitada na cama mesmo. Acabei de aplicar e fui rápido para o banheiro. Pela dor que estava sentindo, parecia que tinha muitas fezes para sair e não queria que isso acontecesse na cama.

No banheiro a cólica voltou bem forte e só saiu um pouco de fezes bem líquidas, como se já estivessem na região anal, só esperando o clister. Sabia que ainda tinha muito mais para sair, mas não agüentava ficar ali nem mais um minuto. Precisava deitar urgentemente ou corria o risco de cair ali mesmo, no chão do banheiro. Quando estava levantando, senti mais fezes descendo pela minha perna. Olhei e o chão estava todo sujo. Comecei a chorar, de desespero. Nunca havia me imaginado numa situação tão constrangedora. Como ia abaixar e limpar tudo? Entrei para o chuveiro e consegui me lavar. Abri um pouco a porta, chamei meu Bebê e pedi a ela que me trouxesse um balde com água e pano. Ela queria entrar para ver o que estava acontecendo, mas não deixei. Joguei a água no chão e comecei a limpar, mas a dor foi muito forte. Precisava deitar com urgência mesmo.

Nem sei como consegui chegar no quarto. Minha filha veio e pedi a ela o celular. Sem eu saber ela foi para o banheiro e limpou tudo! Liguei novamente para a médica e disse o que aconteceu. Pediu que eu tomasse um antiespasmódico e que fosse para o pronto atendimento do hospital e procurasse o cirurgião de plantão. Eu disse que estava sozinha com minha filha em casa e que não conseguia me mover da cama de tanta dor que estava sentindo. Então ela disse que eu teria que chamar uma ambulância porque eu necessitava ir até o hospital para ver o que estava acontecendo. Liguei no SAMU e não quiseram me socorrer. Disseram que eu tinha plano de saúde que cobria o deslocamento terrestre. Se eu não estivesse com tanta dor tinha brigado demais com eles. Mas resolvi ligar para a minha seguradora do plano de saúde mesmo. Queria chegar logo no hospital. Quando consegui completar a ligação foi outro suplício. Começaram a me fazer tantas perguntas que comecei a chorar no telefone. Estava sentindo muita dor prá passar por toda aquela burocracia. Enquanto eu falava com o plano de saúde, meu Bebê estava localizando minha mãe para que ela viesse me ajudar. Depois de mais de 10 minutos tentando convencê-los de que eu realmente precisava de uma ambulância, atenderam meu pedido e vieram me buscar. Mas o desgaste até isso acontecer foi extremo!

Minha mãe chegou junto com a ambulância. Eles me examinaram rapidamente e disseram que eu teria que ir até a ambulância em uma cadeira de rodas porque a maca não passou pelas escadas do prédio. Aí desesperei. Não queria sentar. Estava com muito medo de sentir mais dor do que já estava sentindo. Chorei como uma criança. Meu único arrependimento de ter me “liberado” dessa forma foi porque fiz isso na frente da pessoinha que mais amo nesse mundo e que ainda é uma adolescente de 15 anos. Não queria essa imagem na cabeça dela. Não mesmo...

Logo em seguida meu pai chegou também e eles me levaram para a ambulância. Olhem... quando estava para dar à luz, senti 12 horas de contração. A dor que senti agora, nem se compara com as dores do parto.


Quando cheguei enfim na ambulância, me colocaram na maca, me prenderam e pediram que meus pais acompanhassem a ambulância com o carro. A sensação de ser uma paciente em um carro desses era muito estranha. Sempre quis andar em uma ambulância, mas trabalhando em emergência, não naquelas condições. Na verdade, nem pude “curtir” o interior do veículo e os equipamentos. Só rezava para chegar logo ao destino.

Chegando ao hospital, já me transferiram da maca e o cirurgião de plantão foi acionado. Nem me lembro do rosto dele. A dor estava um pouco menor, mais ainda doía muito e eu me fazia de forte, porque meu Bebê estava lá. (Estou contando essas coisas aqui, mas nem sei como ela reagirá ao ler. Provavelmente vai me xingar).

O cirurgião receitou o mesmo antiespasmódico, só que na veia. Conversou com minha médica pelo telefone e resolveram me deixar em observação. Decidiram me internar, mas não haviam apartamentos disponíveis. Isso para mim era terrível. Quando pagava um plano para apartamento não era pensando somente no conforto meu e de quem precisasse me acompanhar. Era também pela minha situação como portadora de Doença de Crohn. As idas ao banheiro eram constantes e, em uma enfermaria, teria que dividir o banheiro com outros pacientes. Não me sentia confortável para isso. Mas como não havia outra solução, fui para enfermaria. Isso já era de madrugada. Nem preciso lembrar a vocês que estava capengando de sono, né? Era a segunda noite sem dormir. Vou transcrever meu registro do Pronto Atendimento do hospital:

“Paciente da proctologia em acompanhamento há vários anos com Doença de Crohn, vem ao PA trazida pela ambulância do convênio, com contato prévio da Dra. xxxxx. Encontra-se com estado emocional bastante alterado e com abdômen doloroso à palpação superficial. Irritação peritoneal negativa. Evacuando no PA.”

No próximo post continuo...

Bjim!

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Um comentário:

Patrícia disse...

Definitivamente, o botãozinho que liga e desliga sempre tem nome e sobrenome, minha amiga... Isso não dá pra contestar...