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terça-feira, 19 de agosto de 2008

37- Sem Dores, e sem Alguns "Pedaços"...


Já era noite. Eu havia "apagado" cedo com a anestesia e só havia despertado à noite (no CTI). E ainda estava sonolenta. Passei aquela noite acordada por mais tempo que dormindo. Observava tudo ao meu redor e cada detalhe meu. Todos os medicamentos que me davam, dosagem, tudo. Sabia também que tinha três colegas da faculdade que trabalhavam naquele CTI, que por sua vez tinha umas 6 alas. Pedi que procurassem por eles para mim. Só um estava no plantão daquela noite. Ele veio, conversamos bastante. Pedi que bisbilhotasse no meu prontuário como meu organismo estava reagindo: débito urinário (volume da urina), o dreno, pressão arterial, tudo que ele conseguisse. Voltou dizendo que estava tudo bem, dentro da normalidade, que eu podia dormir que no dia seguinte os médicos conversariam comigo.

Pedi para molharem minha boca, que estava muito seca. Sabia que não podia tomar água ainda por causa da anestesia, mas eles me deram um copo com um pouquinho de água e gazes limpas para que eu molhasse na água e passasse na boca. Acordei no dia seguinte na hora da troca de plantão dos funcionários. Minha médica chegou nesse momento. Estava alegre, disse que a cirurgia tinha sido muito boa e que, se tudo corresse bem, no dia seguinte eu voltaria para o quarto... affff.... mais um dia inteiro no CTI! Ela me examinou, olhou tudo e disse que entraria em cirurgia aquela hora, mas que depois me diria os detalhes da cirurgia. E que eu agora era uma ostomizada definitiva!

Vou mostrar a transcrição da cirurgia, mas só tive noção desses dados e detalhes meses depois:

RETOSSIGMOIDECTOMIA ABDOMINAL.
Anestesia geral balanceada.


INDICAÇÃO
: abcesso pélvico por necrose de reto secundário à doença de Crohn.

TÉCNICA
: laparotomia mediana ampla. Grande processo inflamatório na pelve com bloqueio local realizado por íleo terminal, útero, apêndice cecal e sacro. Iniciamos dissecção do cólon sigmóide e do reto, com ligadura dos vasos mesentéricos interiores na raiz. Identificamos ureter esquerdo e seguimos a dissecção ao assoalho pélvico. Havia necrose da parede posterior do reto à direita, com pus e secreção fecal na pelve. Seccionamos o reto junto à musculatura do assoalho pélvico e fechamos o coto reto-distal em plano único. Liberamos o ângulo esplênico e soltamos parcialmente o cólon transverso esquerdo. Realizamos a colostomia terminal em quadrante superior esquerdo do abdômen. O cólon está muito doente com espessamento importante da parede e do mesocólon e estenose parcial da luz. Não foi possível maturar a colostomia. Revisão da hemostasia e limpeza da pelve e da cavidade. Fechamento do retroperitônio. Posicionamento da sonda nasogástrica. Fechamento da parede abdominal. Encaminhada ao CTI.”

Como ela disse que eu estava bem, comecei a abusar um pouco da água. Comecei a espremer a gaze cheia de água dentro da boca. Em poucos minutos o copo estava vazio. Alguns pacientes começaram a tomar café. Eu não sentia fome. O soro alimentava bem. Mas a sede era quase insuportável!

Ai vieram me dar banho de leito. Uma bacia com água, uma toalha, sabão e roupa de cama seca. Sabia perfeitamente como era esse procedimento. Pedi que não o fizessem em mim. Preferia ficar 2 dias sem banho do que passar por aquilo. Havia tomado banho no dia anterior, antes da cirurgia. Estava sem banho há 24 horas e achava que agüentaria mais 24 horas se preciso fosse. Não gostaria de virar na cama para um banho mal dado. Pedi que limpassem minhas “partes íntimas”, minha barriga que estava toda suja de iodo e me lavassem as mãos e escovassem meus dentes. Na minha barriga estavam a bolsa de colostomia, o dreno, a cicatriz da cirurgia, que ia da pelve, onde tenho a cicatriz da cesariana, até uns 15 cm acima do umbigo, bem no meio da barriga, passando na lateral do umbigo. Era até bonitinha. Minha médica é caprichosa...

Na imagem acima, uma ilustração do posicionamento do estoma e da localização da cicatriz. Claro que esse abdomen lisinho e bonitinho não é meu... a imagem é apenas didática!

Durante o dia aconteceram coisas normais de CTI... alguém que piora, outro que acorda, mais um que chega e outro que vai embora. E vozes. Todos os funcionários: técnicos e auxiliares de enfermagem, enfermeiros, médicos, fisioterapeutas. Todos conversando como se aquele local fosse uma cozinha e estivessem em constante momento de café. Ouvi cada fofoca!

Durante o dia fui enrolando os funcionários e já comecei a beber água. Ainda bem que estava com sonda na bexiga. Quando estava acordada e sozinha, começava a arriscar uns movimentos. Levantava as pernas, tentava mexer o quadril, levantava o tórax apoiando o cotovelo na cama e mexia bastante os pés. Pedi para levantarem a cabeceira da minha cama para que ficasse mais alta. Queria o pulmão trabalhando bem.

Quando meus pais chegaram para me visitar eu estava no maior papo com a funcionária da enfermagem, quase sentada na cama, com um copo de água na mão. Nem preciso dizer o susto que eles levaram de me ver tão bem. O médico veio conversar e disse que, se minha médica não tivesse prescrito que eu só sairia no dia seguinte, ele me daria alta naquela hora. Eles conversaram um pouco comigo, me adiantaram que a cirurgia demorou muito mais do que o tempo previsto, que minha médica disse que houve umas surpresas durante o procedimento, mas que amanhã contaria os detalhes. Estava super ansiosa para saber.

À noite, os outros dois colegas da faculdade vieram me ver. Conversamos até. Bebi água demais! Despediram porque tinham muito trabalho naquela noite, pois os CTI’s estavam bem cheios, mas prometeram voltar depois. Tomei meus remédios, inclusive um que me ajudaria a dormir. Acordei pela madrugada, vi alguns funcionários trabalhando, pedi água e dormi novamente. Acordei pela manhã, e estava com fome! Minha Anja apareceu e autorizou que eu tomasse um suco. Preencheu minha alta do CTI e fiquei esperando me levarem pro quarto.

Aí veio a hora dolorosa. Queriam me passar para outra maca, que era mais alta que a cama em que eu estava. Como não sou, nem nunca fui magra, sabia que a dificuldade seria grande. Sugeri aos rapazes que me ajudassem a ficar em pé, seria mais fácil. Eles adoraram a idéia, claro. Sentei, esperei um tempo para não ficar tonta. Sentar foi muito difícil. Parecia que dentro de mim estava tudo remexido. Doía demais! Quando levantei, disse a eles que, já que eu havia conseguido ficar sentada, por que eles não me levavam em cadeira de rodas. Seria mais fácil prá todo mundo. Tudo que eu desejava era me recuperar bem rápido e tomar um banho em pé. Precisava começar a me esforçar.

Quando saí do CTI, minha mãe estava a minha espera e não acreditou que eu estivesse sentada. Queria brigar comigo, mas estava feliz de ver que eu estava bem. Fomos para o apartamento. Como eu ia precisar ficar grande parte do dia com a cabeceira bem elevada, pedi um apartamento com aquelas camas automáticas, modernas. Sabia que quem ficaria rodando aquela manivela no pé da cama o tempo todo seria minha mãe, que tinha sérios problemas de coluna. E como aquele hospital possuía vários apartamentos com camas modernas, não hesitei em fazer esse pedido. Foi ótimo! Logo depois meu pai chegou com meu bebê. Eu estava cansada por causa do esforço físico, mas estava muito feliz por tudo ter dado certo até aquele momento.

Pedi à enfermeira responsável pelo setor, que por sinal é um amor de pessoa, um exemplo para eu seguir quando me formar, que me emprestasse uma técnica que estivesse liberada mais tarde, para me ajudar a tomar um banho. E pedi que retirassem a sonda porque queria fazer meu próximo xixi no banheiro. Se eu não conseguisse, tinha o recurso da comadre. Não queria ficar com ela mais tempo. Já tinha domínio do meu esfíncter e poderia controlar a vontade de fazer xixi, e o risco de se ter uma infecção por causa da sonda é bastante grande. Então ela mesma retirou, o que para mim, já foi um alívio.

Continuava no soro e com o dreno, que eu mesma já mensurava e arrumava. Por causa dessa minhas mexeções, senti meu intestino soltando gases. Isso era ótimo! A bolsa estava ficando mais gordinha com os gases, mas aí pensei... para esvaziá-la, como seria? Na cama mesmo e o cheiro ficaria ali, pairando no ar e no nariz de quem estivesse comigo? A técnica veio e abriu a bolsa para a retirada do ar e saiu um pouco de fezes líquidas. Mediu o volume do dreno, anotou tudo e foi embora.

Minha médica chegou e disse que, como eu já havia evacuado, mesmo com as fezes líquidas, entraríamos na dieta já pastosa. Comecei com um mingau (adoro!) e, à noite, tomei uma sopa pastosa. Foi a melhor comida da minha vida! Estava começando a me alimentar novamente. Enquanto isso era providenciado ela sentou para explicar a cirurgia, após ter me examinado e comprovado que eu estava ótima, melhor que o esperado.

Deixo a explicação da cirurgia para o próximo post, mas adianto a vocês que minha recuperação foi muito rápida. A maioria dos pacientes que se submetem a uma laparotomia saem do CTI ainda bem fracos e com uma recuperação lenta.

Graças a Deus correu tudo bem...

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Um comentário:

Cláudia disse...

Obrigada por postar o que aconteceu com vc. Semana que vem entro nessa. To meio amendrotada mas com muita fé. E confiante em Deus e nos meus médicos. Pena que meu plano é ambulatorial... sei lá o que vai ser de mim, só tenho medo quanto a isso?!