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terça-feira, 23 de setembro de 2008

43- Dia Marcante: 18/09/2006

No começo do mês de setembro tive uma novidade desagradável (mais uma!): ao lado do meu estoma, apareceu uma ferida, bem embaixo da placa da bolsa de colostomia. Espero que vocês possam imaginar o tamanho do meu susto. Estava justamente voltando a ter uma vida relativamente normal, pois já estava me adaptando ao estoma, a perna estava bem melhor, as aulas na faculdade estavam interessantes e havia retomado alguns contatos pessoais quando isso aconteceu.

Liguei para minha médica pedindo uma consulta urgente, mas só consegui para 18 de setembro. Enquanto isso, fui até a AMÓS e comprei uma pasta própria para se passar na pele, embaixo da placa da bolsa, para proteção. Não vou dizer o nome/marca para não interferir nas opções de quem estiver lendo, pois na verdade, tanto as bolsas quanto os acessórios dependem do tipo de pele do usuário. Mas essa pasta cara a Associação consegue a preço de custo para os associados. Comecei a passar na ferida, para que pudesse colocar a placa, mas depois de alguns dias isso ficou impossível, pois a ferida estava com muita secreção e por isso a pasta não fixava além de arder horrores, pois ela contém álcool. Era a conta de encostá-la na ferida e tinha a sensação de estar queimando, era horrível a dor. Mesmo assim continuei aplicando até o dia da consulta. E esse dia foi marcante demais para mim...

Minha mãe foi me acompanhando até o consultório e presenciou cada detalhe dentro daquela sala. Fui examinada pela médica e, claro, ela não gostou do que viu. Ficou até um pouco chocada, tanto que chamou as outras duas colegas da clínica para verem a ferida e ajudarem-na no diagnóstico. Mas ambas foram categóricas em afirmar que não seria possível diagnosticar e que o melhor seria fazer uma biópsia para exclusão. Na opinião das três poderia ser Pioderma Gangrenoso (úlcera na pele que pode estar associado a alguma doença sistêmica, no caso, o Crohn) ou até mesmo a doença de Crohn com manifestação na pele, apesar de ser raríssimo.

E pensamos também na hipótese de ser uma alergia da pele em relação à resina da bolsa de colostomia. Elas então saíram e fui me vestir para conversar e analisar o que deveria fazer. Foi a conversa mais difícil que tive até hoje com a médica.

Primeiramente ela disse que a biópsia deveria ser realizada e que iríamos marcar um dia para fazer no ambulatório do hospital, pois necessitava de anestesia local e esse procedimento só poderia ser realizado lá. Ela manteria a medicação e incluiu um antibiótico. E que independente do diagnóstico, algumas considerações deveriam ser levadas em conta. Claro que a causa da ferida poderia ser a placa da bolsa que pode ter irritado a pele a ponto de feri-la. Mas que eu não deveria esquecer de que no mês anterior eu estava com infecção intestinal e que a ferida estava localizada exatamente ao lado do estoma, por onde as fezes saíam. E era exatamente sobre isso que ela queria conversar.

Nesse momento ela começou a falar de uma forma bastante séria e me disse que, mesmo eu sendo uma paciente que seguia o tratamento à risca, algumas atitudes minhas não condiziam com o conhecimento que eu tinha (graduanda em Enfermagem). E que ela tinha certeza absoluta que o cigarro prejudicava minha doença de uma forma muito violenta. Ela deixou claro que não estava falando dos malefícios do cigarro em meu corpo de um modo geral, e sim voltado para o Crohn. Disse também que iria cuidar de mim até onde Deus permitisse, mas que queria ter a consciência tranqüila de ter me alertado a respeito do problema. E terminou falando que essa seria a última vez em que ela falaria comigo a respeito do cigarro.


Enquanto ela foi falando, senti meu mundo ruir. Claro que eu sabia dos problemas do cigarro, mas eu precisava dele e muito. Será que ninguém nunca entenderia isso? Eu perdi tudo na vida: minhas economias, meus amores, minha vontade de amar alguém, meus amigos, meu físico, minha vida pessoal, minha estima. O cigarro era meu único companheiro, minha bengala. Era nele que eu me apoiava para tudo. Como poderia largá-lo? E descobri que meu maior medo era não conseguir fazer isso, tentar largar e não conseguir. Sofrer por mais um motivo. Enquanto pensava nisso tudo, fui desabando. Chorei, mas dessa vez sem receio de despertar opiniões a meu respeito. Foi como um choro de criança. E minha médica não foi complascente, ao contrário, continuou fria e seca. Despedi, prometendo retornar na semana seguinte para ver a ferida novamente.

Saí de lá arrasada, querendo nunca mais voltar a pisar ali. E minha mãe ao meu lado, presenciando tudo. Enquanto ela buscava o carro no estacionamento aproveitei para fumar um cigarro. Como ele me aliviava! O pior de tudo é que não conseguia parar de chorar e chamava a atenção de todos que passavam por mim na rua. E entrei no carro chorando. E cheguei em casa chorando. Passei direto e fui para o meu quarto pois queria ficar só e isolada, chorar tudo que estava guardado há tempos. Entrei para o quarto e bati a porta, estava com muita raiva. Me sentia uma inútil, impotente. Tudo que eu fazia era insuficiente, nada dava certo. Procurava não fazer mal a ninguém e só tinha dificuldades em controlar o pensamento. Ainda era muito orgulhosa e intransigente com os outros, mas já me policiava bastante quanto a isso. Sempre tentei proporcionar o melhor para minha filha e também passei a evitar discussões em casa para manter um clima de convivência agradável. A única coisa consciente que eu fazia de errado era fumar, e mesmo assim, só prejudicava a mim mesma pois nem dentro de casa eu fumava. Estava com raiva sim, queria gritar para o mundo que também sou gente, tenho necessidades e desejos.


Por que tudo sempre é tirado de mim?


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7 comentários:

Anônimo disse...

Oi, boa noite. Não sei nem como funciona esse blog. Nunca tinha mexido nisso. Só que mexendo na internet acessei a essa página e vi esse depoimento que me chocou.
Sou Marcos , morador da cidade de Ariquemes em Rondônia e queria dizer algo a essa pessoa que nem sei o nome, pois como disse anteriormente, não sei como funciona isso. Queria dizer-lhe querida, que o seu desespero tem um nome. A Ausência de Deus em tua vida. Com Ele, você esqueceria o cicarro e faria um tratamento para seu caso melhor, sem se machucar tanto. Não culpe as pessoas, não culpe você, etc... Deus tem um propósito na vida de qualquer um. Não estou falando de religião e sim de Deus , independente de religião. Procure na internet a música " Chance" com o cantor " Luiz Cládio". Esse música tem um significado imenso na minha vida. Ouça-a . Depois do câncer na minha mãe mudei e passei a repensar em tudo que faço na vida. Saiba que se tu queres a tua cura, Deus poderá curá-la. É só acreditar e seguir Seus mandamentos. Fique com Ele.

Anônimo disse...

se quiser entrar em contato: marcossefaz@msn.com
mas deixe esse cigarrro, cuide de você e acredite que Deus poderá curá-la. Fique com Ele.

Adryanna Araújo disse...

Oi amiga se posso te chamar assim pois nem ti conheço ainda mas não vou dizer que fiquei comovida...mas sim sentida e também com um pouco de revolta...pois muitas vezes só tentamos fazer o bem ao nosso proxímo e muitas vezes não entendermos porque temos que passar por situações tão dificieis como a sua...eu tenho colite inespecifica e foi atraves de seu blog que comparei alguns sintomas e estou descobrindo esse doença que esta me tirando o sossego...Amiga se vc tiver que largar o cigarro largue!! para o seu bem porque eu tive que larga-lo pra TER SAÚDE!!!BJOS!!!!TENHA FÉ!!!COM FÉ NOS VAMOS LONGE!!!:)

Adryanna Araújo disse...

se quizer entar em contato comigo meu msn é drikadyne@hotmail.com

kelly_marquesvr@hotmail.com disse...

Oi Leca,desde que conheci o site chronistas,leio seus posts e acompanho sua luta,também sou portadora de doença de chron e passei por todas essas fazes que vc passa,portanto agora vc vai ler um comentário de quem sabe pelo que vc está passando,saiba que pelo que já li e conheço de sua história ,vc é uma pessoa muito guerreira,é otimista,e não deu o braço a torcer para o chron ,vc o enfrentou,não fique triste por estar se sentindo assim ,as vezes por mais fortes que somos ,nós também desabamos,mas temos forças interiores que nem imaginamos,temos DEUS sim,fé e garra,vc tem todo o direito de chorar e mostrar suas fraquesas,afinal não somos mulheres maravilha,somos gente de carne,osso e sentimentos,saiba que te adimiro e sei muito bem o que vc sente,pois compartilho dessa mesma dolorosa doença,que nos agride fisica e emocionalmente,sei que o que mais me ajuda nessas horas são meus filhos ,marido e pessoas que me amam,aquelas que sei que cagam e andam para mim,eu deleto e as que não me compreendem eu me afasto e assim eu me fortaleço,perto dos que me amam,largue o cigarro ,tente pelo menos,vá aos poucos que vc consegue,bjs,boa sorte em sua caminhada.

Anônimo disse...

se quizer entrar em contato comigo,kelly_marquesvr@hotmail.com.

Anônimo disse...

Oi Leca!
Estou com insonia, devo te dizer que vc tem uma familia e uma filha linda diga-se de passagem a atitude dela com seu cigarro me deixou emocionada. Tambem perdi tudo e meu nenem foi assassinado pelo meu Ex marido, eu so tenho de familia meu Pai lindo no Brasil tb tenho DII, e meio complicado isto aqui nos USA aonde moro atualmente, so posso te dizer que que vc e muito mais que este cigarro, e Deus Leca faz parte de vc independente de cigarro, maconha cocaina estas substancias nos matam, e Deus em sua misericordia nos quer vivas, pq somos seres de infinita luz e beleza! tb sinto falta do cigarro mas lembro de Papai no Brasil, e de Eluard meu Filhinho, e tenho forcas para continuar, aprendi a gostar muito de vc, timidamente de longe... mas saiba que torco por vc!
Mandhashultz